03/01/2017 17:22:00

BALANÇO
O que o esporte nos ensinou em 2016 e aquilo que jamais aprenderemos
O ano que passou foi complicado, mas isso não quer dizer que não surgiu um golaço ou outro no caminho


Atletico Nacional: amigos para siempre (Foto: Marcos Ruiz/STR via Getty Images)


Por Rafael Nardini, do HuffPost Brasil

São várias listas sobre o que deu certo e deu errado no ano que parece que só deu errado.

Eu entendo. Mas não deu tudo errado, não.

Como boa parte de todos vocês, estes 365 dias têm sido bastante duros por aqui também. O que não quer dizer que não surgiu um golaço ou outro pelo caminho.

Uma fresta de alegria foi o retorno do esporte para sua base inicial: a paixão legítima com que as pessoas rompem barreiras humanas.

2016 foi um ótimo ano para valorizar os ícones que testam o limite do corpo, mas também da realidade. Ou vai dizer que Simone Biles não parece mais uma super-heroína do que uma garota recém saída da adolescência? É normal uma pessoa superar tudo que Rafaela Silva superou para sagrar-se campeã olímpica justamente em casa, no Rio de Janeiro?

Não, não é. Mas, elas, de alguma forma, conseguem.

O sucesso estrondoso do futebol feminino na Rio 2016, que caiu de pé com a quarta colocação olímpica, foi outro lindo sinal de que as coisas podem florescer. Emily Lima, logo após os Jogos, tornou-se a primeira treinadora da nossa querida equipe feminina - com estreia promissora e goleada de 6 a 0 contra a Costa Rica. Marta, mais uma vez, está entre as três melhores do planeta. Será que vamos conseguir romper a barreira sexista e fazer do esporte uma bandeira nacional? Os meus votos são sinceros, acredite.

O Brasil que brilhou nos pódios olímpicos - como nunca antes, diga-se - foi aquele Brasil mais simples, aquilo que por aí preferem chamar de "Brasil real". E nada é mais real que um país repleto de atletas lutadores que enfrentam favoritos muitas vezes com bem mais estrutura.

É o Brasil de Maicon Siqueira, ex-pedreiro e ex-garçom, que venceu a última medalha na campanha vencedora inédita nos Jogos: 19 medalhas, sendo 7 de ouro, 6 de prata e 6 de bronze.

Ter tido a chance de acompanhar pessoalmente um treino da judoca congolesa Yolande Bukasa, 28 anos, refugiada no Brasil, é um dos pontos pessoais mais altos deste ano para mim:

"Competir nas Olimpíadas é lançar uma mensagem para o mundo. É a vida de todos os atletas. Fica na História, não vou esquecer. Nunca escutei que refugiados disputaram uma Olimpíada", me disse a atleta.

Mas também poder aprender com a alegre, espontânea e veloz Terezinha Guilhermina, velocista cega mais rápida do mundo e bicampeã Paralímpica, em outra entrevista de encher o coração. Como ela chegou tão longe?

"Nunca aceitei o pouco que tinha", ela me contou.

O Brasil real é bem mais inspirador do que o Brasil da realeza de Brasília, encastelada em manobras nada republicanas.

Bem, e aí, após a Rio 2016, veio o choque...

GRACIAS HERMANOS 

O desastre terrível com o voo que levava os jogadores da Chapecoense para a partida com o Atlético Nacional nos fez lembrar que o esporte é capaz de nos unir em momentos de dor.

Da dor nasceu a reação mais bonita que poderia se imaginar pelos lados de Medellín. Desde a madrugada de 29 de novembro, a madrugada que nunca terminou, as reações foram sempre as mais bonitas. "Nasce uma nova família", dizia uma faixa estendida no estádio colombiano durante a partida eterna que nunca houve.

O brasileiro, que parece sempre se esquecer ter nascido latino-americano, viu-se extremamente desarmado com a reação dos nossos irmãos que decidiram nos tratar como familiares que precisavam de carinho, que precisavam de colo: 45 mil dentro do estádio, 100 mil pelas ruas de Medellín.

Que o brasileiro nunca se esqueça de que ser latino-americano não é e nem poderia ser pejorativo. Na América do Sul vive o povo colombiano, oras.

De Chapecó, os agradecimentos em forma de presente. A cidade catarinense oficializou os colombianos como 'irmãos' e promete criar a praça Medellín. Já era hora. Gracias, mis hermanos.

O QUE NUNCA VAMOS APRENDER 

A visão exportada pelo Rio de Janeiro para os visitantes - e que passa bem distante do "Brasil real" - parece ter sido bastante efetiva: nove entre 10 dos visitantes estrangeiros de primeira viagem no Rio falaram em voltar ao País. 83% declararam terem gostado do Rio.

Ou seja: no Rio de Janeiro exibido aos turistas, o sucesso foi completo.

O que contrasta completamente com a realidade que enfrenta o Rio real. A cidade do prefeito Eduardo Paes, que provocou australianos antes dos Jogos e acabou com os bens bloqueados já ao final do ano por ter isentado uma construtora de pagar pela licença ambiental do campo de golfe olímpico. Onde foi parar o fair play, prefeito?

O "Legado Olímpico", como já aconteceu com o "Legado da Copa", caminha para ser um acumulado de erros, mais que qualquer outra coisa. Vai ser também um acúmulo de entulhos. Rios de dinheiro jorraram na capital fluminense que agora capenga para manter-se em pé. O estado segue na mesma batida, quebrado, mal: Cabral segue preso. Garotinho deu mais sorte: esperneou e se livrou.

Como não há esporte desligado dos valores da sociedade, sobram dois maus exemplos para encerrar o papo. Primeiro, o Internacional, de Porto Alegre, rebaixado pela primeira vez no Campeonato Brasil, e decidiu expor todo o desrespeito às regras do jogo. Se a regra me pune, que então mudem as regras.

Toda vontade de fazer valer a própria força em momentos difíceis.

No dia que seguiu a tragédia da Chape, Fernando Carvalho, dirigente colorado, conseguiu comparar o destino de sua equipe, sua "tragédia particular", com a queda de um avião repleto de atletas.

A falta de capacidade de sentir a dor dos outros se completou, como a alega a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com uma tentativa de virar a mesa, de agir fora das regras. Isso incluiria até e-mails falsificados. Tudo para escapar da Série B.

É o famoso "jeitinho", a Lei de Gérson, que parece nunca deixar os brasileiros. No esporte e fora dele.

E não há atleta olímpico ou torcedor colombiano que parece ser capaz de nos tirar da nossa sina: a de virar a mesa assim que o jogo parecer duro demais.

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