04/02/2017 15:38:00

ARTIGO
Cumbuca mal acabada



Certa feita, numa entrevista, pediram ao escritor Thomas Mann que ele oferece um conselho à juventude. Sem pestanejar, o prêmio Nobel disse que os jovens não deveriam jamais perder a capacidade de admirar.

A admiração é uma poderosa alavanca que move o desejo humano de ser, o desejo de realização da singularidade da personalidade de cada um.

Quando o admirar é voltado para figuras virtuosas, pode, como todos sabem, render bons frutos, ajudando o indivíduo a forjar, com o devido auxílio da Graça, a sua pessoa.

Quando perdemos essa capacidade, acabamos nos corroendo numa lúgubre fossa de rancor que, dia após dia, vai nos incapacitando de seguir nosso caminho nessa jornada que é profundamente humana.

Remendo importante: por favor [por favor!] não confunda a admiração com o culto à personalidade. Esse, é fartamente presente em meio aos praticantes do nacional-socialismo (Hitler), do fascismo (Mussolini) e do marxismo (de Stálin à Lula, passando por Chavéz, há idolatria de sobra). Aliás, o caipora tem que ser muito tosco pra confundir isso com aquilo. Muito mesmo. Na dúvida, a leitura dos livros “O Estado Espetáculo” de Roger-Gérard Schawartzenberg, “Nossa cultura ou o que restou dela” de Theodore Dalrymple e "A pedagogia Simbólica" de Carlos Amadeu Byington podem ser de alguma valia. Remendo feito, sigamos em frente.

No correr de toda a história, a humanidade sempre foi brindada com personalidades de grande densidade que, literalmente, tornaram-se verdadeiros catalizadores axiológicos, cristalizadores de valores universais; valores esses que, por sua deixa, tornaram-se visíveis aos olhos de muitos através das obras e feitos dessas almas aquilatadas, inspirando gerações e mais gerações a agirem de modo elevado e a serem dignos e bons.

De mais a mais, vale lembrar que ideias e valores apenas tornam-se plenamente compreensíveis quando estão enraizados na vida através da jardim das figuras exemplares que, literalmente, os encarnam; através de pessoas que se tornam a imagem e semelhança desses valores e ideias.

Na verdade, todas os grandes mestres forjaram sua personalidade e bem como suas obras a partir da admiração sincera que nutriam em relação a alguém que eles consideravam notável.

Os exemplos abundam na história, e podem iluminar nossa alma, desde que estejamos dispostos a estudá-los para conhecê-los.

Ora, o que seria da filosofia sem a admiração cultivada sem medida pela personalidade de Sócrates, Platão e Aristóteles; pela notabilidade de Santo Agostinho, Santo Alberto Magno e Santo Tomás? Citei apenas esses senhores, mas a lista é imensa e, sem a admiração, tão recomendada por Thomas Mann, a filosofia nada seria ou, quase nada.

E a história? Pois é, grandes historiadores acabam, querendo ou não, fazendo escola. Alguns sinceramente desejavam isso, outros não; mas, no fundo, a admiração por uma pessoa de elevadas qualidades e pela sua apurada obra acabava gerando a imitação do trabalho dos mestres que, por sua vez, e com o devido tempo de amadurecimento, permitia que o imitar acabasse se tornando um estilo independente do modelo mimetizado.

O mesmo vale para a literatura, pintura, escultura, música, engenharia, arquitetura, esportes, aventuras (como as grandes navegações e explorações), santidade, ofícios, líderes (militares e políticos), enfim, a admiração leva-nos a tornarmo-nos, dentro das devidas medidas, algo similar ao que é admirado por nós, como tão bem nos ensina Luis Vaz de Camões em um de seus belíssimos sonetos.

Porém, todavia e, entretanto, muitos homens modernosos desdenham a admiração. Fazem pouco caso dela. Principalmente os [presunçosamente] sabidos.

No lugar dela preferem a invídia ferina, mal escondida sob o manto da procura insana pela originalidade ou, noutros casos, em nome duma suposta, bem suposta, superioridade moral e intelectual mal vestida com os andrajos de uma hipotética consciência crica, digo, crítica.

Tal atitude, no fundo, apenas evidencia um desejo imensurável de ser admirado pelos outros por qualidades que não são possuídas pelo infeliz e, por isso, para diminuir o seu sentimento de mendacidade, proclama o fim do reconhecimento da grandeza presente nos gigantes que sustentam-nos em nosso nanismo existencial para que, desse modo, todos os anódinos desse naipe furado sintam-se grandinhos e especiais com a sua mediocridade.

No fundo, é isso que há nas entranhas de todo discurso igualitarista que tanto se faz presente nas pedagogias demagógicas modernosas e progressistas. Na verdade, bem na verdade mesmo, só pessoas desprovidas de personalidade fazem beicinho e empinam o narizinho para reconhecer as virtudes duma aquilatada personalidade e não medem esforços para destruí-la.

Enfim, como havíamos dito anteriormente, enxovalhar o maravilhar-se e dizer que admirar é uma atitude retrógrada e blábláblá é apenas uma dor de cotovelo mequetrefe, fruto, como diria Manuel Bandeira, duma vida que poderia ter sido, mas não foi.

Não é por menos que hoje, as mentes bem pensantes chamam o cultivo sulfuroso do rancor, do vitimismo e da invídia indisfarçável de [de]formação a partir de uma educação crítica que, inconfessadamente, admira apenas aquilo que habita dentro das limitadíssimas fronteiras de suas viseiras ideológicas e olhe lá.

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Sobre o Autor

Cristão católico por confissão, caipira por convicção, professor por ofício, poeta por teimosia, radialista por insistência, palestrante por zoeira, escrevinhador por não ter mais o que fazer e bebedor de café resoluto.