10/09/2017 13:02:00

REFLEXÕES
Remando contra a natureza
Professor, cronista e bebedor de café



(i)

Há dois tipos de leitores: os que leem para conhecer e os que dizem ler para parecer que leram algo.

(ii)

Há dois tipos de amigos do povo: aqueles que vivem anonimamente suas próprias vidas e que auxiliam os necessitados na medida de suas limitações e aqueles que dizem falar em nome do tal do povo para poderem tomar o Estado de assalto e locupletar-se sob a áurea justificativa de estar fazendo todo o possível para socorrer os desvalidos da nação, realizar a tal da justiça social e blábláblá.

(iii)

A consciência indolente é amicíssima do apedeutismo politicamente engajado.

(iv)

Todo rufião populista tem a sua matilha de vira-latas militantes, sempre de prontidão, para defendê-lo de qualquer coisa que soe, aos seus ouvidos caninos, como sendo uma virtual ameaça ao seu dono. Ah! E como eles ficam faceiros fazendo isso. Chega ser bonito de ver, tamanha a comicidade da cena.

(v)

Todo indivíduo, inclinado ao servilismo, não consegue viver sem idolatrar um senhor. Tal tipo humano é incapaz de viver sem ter um amor pra pensar que é só seu e, por isso, ele fica noite e dia de prontidão adulando-o, mesmo que distante, zelando da sua reputação como todo bom capachão faz para que ninguém, em sã consciência, duvide de que ele seja um escravo devotado e, para que todos saibam exatamente quem é seu senhorio.

(vi)

Gosto de brincar com as palavras feito um moleque travesso; gosto de movê-las de lá pra cá feito guri que brinca com bolas de gude no quintal da escola no horário do recreio.

(vii)

Quanto mais os anos vão passando, mais nos distanciamos de nossos passos dados nesse mundão feito de encontros e desencontros. Tal distanciamento é um dom celestial que nos permite rememorar nossos dias como se fôssemos uma espécie de espectador privilegiado da tragicomédia de nossa vida vivida até então que, por sua deixa, nos brinda com a oportunidade única de nos envergonhar de todos os nossos desatinos de antanho e, desse modo, podermos, quem sabe, nos tornar uma pessoa um pouquinho melhorzinha. Ou piorarmos de vereda assumindo soberbamente a nossa canalhice nada original.

(viii)

Quando estamos muito mais preocupado com as emoções boazinhas que nossas ideias possam despertar do que com as reais consequências que podem ser desencadeadas por elas; quando estamos preocupadíssimos com as reações raivosas que nossas palavras podem vir a provocar sem nos importarmos muito com o que de fato estamos dizendo, é porque nossa alma já foi colocada de joelhos pelo que há de mais pérfido na sociedade contemporânea.

Qualquer um, qualquer um mesmo, que se permite cair no desfrute de ser chantageado pelo politicamente correto, pelo marxismo cultural, pelo relativismo moral e suas e demais crias, sem o saber, já encontra-se mentalmente escravizado por querer tolamente conquistar o afeto daqueles que o odeiam.

(ix)

Lembre-se: qualquer um que insista em defender Maduro como sendo um democrata incompreendido e em dizer que o tal do bolivarianismo é uma ideologia política respeitável, de fato, mereceria receber de nossa parte o mesmo tratamento que a ditadura venezuelana impõem aos seus opositores. Mereceria, mas, como não somos cínicos como eles, procuremos dar-lhes tão somente todo o nosso gélido desprezo após, é claro, um olímpico vá tomar no fiote.

(x)

Qualquer salvador da pátria adora gastar dinheiro a rodo - em nome do povo, é claro - desde que a sociedade pague toda a conta do esbanjamento social promovido por ele e que, de preferência, ele possa pôr a culpa pelas suas irresponsáveis lambanças no lombo dos outros. Se possível na paleta dos seus adversários porque, desse jeitinho maroto, fica bem mais fácil posar de menino bonzinho e mal compreendido perante os olhares amigos das câmeras do mundo.

(xi)

Querer o bem do povo não pode ser jamais confundido com a prática de submetê-lo ao domínio dum grupelho político que promove a sua dependência perene através duma esmola estatal ofertada como se fosse uma espécie de maná caído dos céus que é oferecido por um tipo deidade Estatal.

Aliás, o caboclo que vê nisso algo que mereça ser festejado só pode ser um cínico. Na melhor das hipóteses, só isso. Um cínico de marca maior. Na pior das hipóteses é melhor a gente nem saber que tipo de pessoa um caboclo desse é, não é mesmo?

(xii)

Uma pessoa que lê qualquer coisa com a generosa vontade de compreender o que está codificado no tortuoso traçado das linhas, direta e indiretamente, está ampliando o seu horizonte de compreensão e aprofundando a sua humanidade.

Resumindo: o caboclo estará crescendo em espírito e verdade.

Já um indivíduo que lê, uma frase que seja, carcomendo-se de raiva e rancor, dificilmente irá decodificar alguma coisa, seja nalguma linha escrita, seja no traçado de sua porca vida.

Resumindo: o caboclo continuará sendo o sujeito mesquinho que é, por mais que tende disfarçar isso com suas supostas preocupações éticas e sociais, haja vista que tais preocupações sempre foram, e sempre serão, o último refúgio dos canalhas.

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Sobre o Autor

Cristão católico por confissão, caipira por convicção, professor por ofício, poeta por teimosia, radialista por insistência, palestrante por zoeira, escrevinhador por não ter mais o que fazer e bebedor de café resoluto.