11/03/2017 18:28:00
Os 10 minutos do 8 de Março


Foto: Revista Época


O assunto ainda não está esgotado e confesso que estava me sentindo desconfortável por deixar passar em branco. Mas não dá mais. Só quem ouviu ou leu sabe das palavras infames proferidas pelo presidente Temer naquilo que ele pensou ser um pronunciamento comemorativo ao 8 de Março, dia internacional de resistência das mulheres à castração do seus direitos. Temos que temer sim, por estar no comando do país um homem machista, conservador, cruel. Foi crueldade sim o fato de o presidente reduzir o nosso papel na sociedade brasileira à função das lides domésticas, da pro e criação dos filhos, da administração das compras no supermercado.

"Aqui e fora do Brasil" a mulher ainda é tratada como uma figura "de segundo grau, quando na  verdade, ela deve ocupar o primeiro grau em todas as sociedades", bradou em alto e bom som.

E se isso não bastasse, comentou ter a “maior tranqüilidade”, pela convicção e pela formação familiar e por ser casado com Marcela – a  bela, recatada e do lar - do "quanto a mulher faz pela casa, o quanto faz pelo lar, o que faz pelos filhos. Se a sociedade vai bem, quando os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada educação e formação em suas casas. E seguramente isso quem faz não é o homem, isso quem faz é a mulher”. E os impropérios do presidente não pararam por aí. "Ninguém mais é capaz de indicar os desajustes, por exemplo, de preços em supermercados do que a mulher. Ninguém é capaz de melhor detectar as eventuais flutuações econômicas do que a mulher, pelo orçamento doméstico maior ou menor", disse. Por algum momento até temi, que ele, o Temer, me fizesse tremer e dissesse que nós, mulheres, seremos as “fiscais do Temer”, assim como as “fiscais do Sarney”.

Confesso que foram os 10 minutos mais longos dos últimos tempos. Sabe ele que, nós mulheres, temos dupla, tripla, jornadas de trabalho? Que, nós mulheres, por conta disso, trabalhamos 7,5 horas a mais que os homens? Que embora estejamos avançando no mercado de trabalho, graças à nossa competência, ganhamos em média 30% a menos do que os homens e que somos a minoria nos cargos diretivos de empresas, como aponta pesquisa do IPEA? Só 16% das empresas no Brasil possuem mulheres no comando ou como diretoras executivas.
Será que Temer sabe que  continuamos sendo vítimas de um machismo impiedoso que engole grande parte, infelizmente, de lideranças políticas femininas, que entram no embalo de discursos conservadores, ultrapassados, e acabam defende interesses desses homens do poder? Ah! Isso ele (s) sabe (m) e muito bem. Foi à toa que eles derrubaram a primeira mulher que chegou ao cargo máximo da República. Não vou entrar no mérito se a ex-presidente Dilma errou ou acertou. Quem era mesmo o seu vice? E ainda sobre os brados da vitória com a queda de Dilma, o que Temer fez? Nomeou uma equipe essencialmente masculina, mostrando que o machismo voltava a imperar. O discurso nefasto do presidente no dia 8 de Março só confirmou isso. Que Deus nos ajude, porque temos tudo a temer.

Em tempo: Como não poderia ser diferente, Marcela teve dois minutos para falar.

 

Sobre o Autor

Cristina Esteche é jornalista, publicitária e fundadora da Rede Sul de Notícias.