13/02/2017 17:27:00
A quem pertence?


Memórias do Rio Branco (Foto: Blog do Sandrão)


O ex-prefeito de Guarapuava, Cesar Franco, costumava dizer que Guarapuava não possui tradição de Carnaval. Quero dizer que a cidade perdeu essa disposição de fazer parte da maior festa popular do mundo – acredito que ainda seja - , com o passar dos anos. Assim, como o tempo muda muitas coisas.

A profissão de jornalista nos proporciona fazer um passeio pela história, algumas vezes pela própria oralidade de pessoas que entrevistamos. E não foram poucas as vezes que ouvi fatos dos antigos carnavais da cidade, contados pelo meu sogro, Setembrino da Silva, carnavalesco de primeira hora. Ele enchia os olhos para lembrar os carnavais do Clube Rio Branco, da parceria que o Clube de Negros possuía com o Guaíra Country Club, no tempo em que ainda era chamado de O Aristocrático, para “selecionar” a “alta sociedade” guarapuavana, que compunha o clube em épocas passadas. Seus olhos marejavam ao contar sobre os corsos carnavalescos que tomavam conta de parte da XV de Novembro, lá pelos idos de não sei quando. Depois vieram os bailes carnavalescos da SORB, a Sociedade Recreativa Beneficiente, ou o “velho” Clube Operário, com suas matinés das tardes domingueiras, durante o ano inteiro. Como tudo muda – ah! o tempo - vieram os bailes de Carnaval no Guarapuava Esporte Clube. Tempo bom, que também ficou tatuado apenas em lembranças.

Em meio a esses devaneios, que vem e que se vão, com o passar do tempo – olha ele aí outra vez, o tempo – lembrei que o Operário, o Rio Branco – e tem também o antigo Cruzeiro, sociedade que um dia pertenceu aos poloneses – já não existem mais. Mas as os patrimônios estão aí e pertencem a quem? O extinto Cruzeiro foi transformado em condomínio, após ter sido sede de um bailão, por muitos e muitos anos. O Operário, onde funcionou uma danceteria por também longos anos, teve a sede destruída por um incêndio. Possuía diretoria constituída e sócios. O mesmo acontece com o Rio Branco. O prédio continua intacto, há diretoria formalizada e um quadro de associados. Também foi sede de bailão e depois tornou-se comercial.

Nesses locais, o tamborim emudeceu, a cuíca não canta mais, não existem nem confetes e serpentinas. Os amores "momescos" não acontecem mais. E Pierrô continua chorando pelo amor de Colombina, agora fora do salão. Não há mais marchinhas e as fantasias são apenas lembranças que enfraquecem com o passar do tempo, empalidecendo o Carnaval guarapuavano. Mas a quem pertencem esses patrimônios físicose também imemoriais? De quem é a responsabilidade legal sobre esses imóveis e o que se pode fazer com eles? Algum departamento de cultura possui registros sobre essas histórias?

Pelo sim e pelo não, acho que é cômodo concordar com o ex-prefeito Cesar Franco. Afinal, é só mais um episódio da saga : Guarapuava já teve. E assim sendo, Guarapuava não tem [mais] tradição em Carnaval. O que tinha? Se perdeu com o tempo.
 

Sobre o Autor

Cristina Esteche é jornalista, publicitária e fundadora da Rede Sul de Notícias.