14/03/2017 15:10:00

PERSONAGEM
Leonardo: Um retrato da invisibilidade no Centro de Guarapuava
Há mais de 20 anos, cadeirante passa o dia em frente a agência central da Caixa


Leonardo Gonçalves dos Santos (Foto: RSN)


Cristina Esteche

Guarapuava - Quem costuma passar diariamente em frente à Agência da Caixa Econômica Federal, no Centro de Guarapuava, conhece Leonardo Gonçalves do Santos, o senhor cadeirante que fica na calçada, numa das maiores invisibilidades sociais já registradas na cidade. Ele está no mesmo lugar há mais de 20 anos e diz que pode contar nos dedos as pessoas que já pararam para conversar ou que o cumprimentam. “Algumas me ajudam com dinheiro, mas muitas nem me olham”.

Morador na Vila Primavera com um tio, desde que sua mãe morreu, Leonardo diz que sai de casa, todos os dias, antes da 8h e só retorna após às 19h. “Venho de lotação. Gosto de ficar, já me acostumei. O que vou ficar fazendo em casa?” Depois que a agência bancária encerra o expediente externo, ele vai para a Rua XV de Novembro, na esquina com a Vicente Machado. “Assim eu me distraio e levo um dinheiro para casa. Tem dias que ganho R$ 40,00”. Aposentado por invalidez, o valor que recebe como benefício, Leonardo não sabe. “Quem pega é o meu tio e o dinheiro que levo dou pra ele. Ele é quem compra tudo o que preciso, desde roupa até remédio. Tem que pagar o aluguel, a água, a luz e ainda comprar comida. O pessoal aí da Caixa me contou que eu ganho uns R$ 400,00 por mês”.

Quietinho no seu canto, Leonardo se surpreendeu quando iniciei a conversa. Pedi a ele que contasse um pouco da sua vida. Sorrindo, o homem que não sabe sequer a sua idade, disse que sempre morou com a mãe, já que o pai era alcoólatra e vivia na rua. Doente, a mulher se preocupou em deixar o filho cadeirante amparado. “Eu tenho um irmão e uma irmã, mas minha mãe pediu que o meu tio cuidasse de mim e passei a morar com ele desde que ela morreu".

A invalidez aconteceu quando ele tinha 18 anos de idade e foi atropelado em Curitiba. “Levei mais de 60 pontos na bacia, nos braços e na cabeça”, conta, mostrando as cicatrizes. O almoço é a única refeição que ele faz no Centro da cidade. “A hora que dá fome vou ali e como um cachorro quente. Quando tenho vontade de ir no banheiro, os padres disseram que eu posso ir ali na Catedral”.

Mas agora, Leonardo está enfrentando um problema. “Meu tio vai voltar para Cascavel e não quero ir. Sou de Guarapuava e não quero sair daqui”. Para não ficar sozinho, já que depende do auxílio de outra pessoa, ele precisa encontrar um cuidador. “Não sei como vou fazer, mas daqui eu não saio”.

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