14/06/2017 16:07:00

REFLEXÕES
Bebendo água da moringa furada



(i)

Existe uma diferença abissal entre aquilo que é sensual e tudo o que venha a ser uma reles manifestação rasteira de vulgaridade, como bem nos lembra o escritor Mario Vargas Llosa. Porém, com uma frequência muito maior do que seria tolerável, confunde-se facilmente a segunda com a primeira simplesmente porque muitíssimos indivíduos não sabem o que é a primeira e, por isso mesmo, acabam imaginando que o vulgar seja um sinônimo de sensual.

(ii)

Podemos ter uma clara noção da gravidade em que se encontra nossa alma frente às pelejas contemporâneas apenas levando em consideração o profundo desdém que se nutre pelo silêncio e pelos preciosos momentos solitários.

Uma sociedade que não fomenta nem uma coisa, nem propicia a outra está fadada a se degradar. Os indivíduos que não procuram cultivar, nem defender esses tesouros espirituais são sujeitos condenados a cair numa ignóbil e lenta decomposição moral.

(iii)

As alminhas politicamente corretíssimas facilmente se impressionam e dão seus espetáculos de moralismo de meia pataca quando um cidadão reage de modo agressivo por estar farto de ser feito de otário pelo sistema, de ser ludibriado por aqueles que sempre contam com a leniência do dito cujo.

(Nossa [!], dizem as alminhas, como ele pôde ousar fazer isso e blábláblá).

Porém, todavia e, entretanto, essas mesmas alminhas jamais param pra cogitar no quanto esses cidadãos, anônimos até estourarem em seu dia de fúria, tiveram de aguentar até aquele momento de ira da camarilha que se locupleta com a cultura da impunidade que impera em nosso país.

E não pensam nisso porque o cidadão comum, que procura, na medida do possível, viver de modo correto, não se enquadra nos estereótipos de vítima do tal sistema que são consagrados pela grande mídia e pelo establishment.

Enfim, seja como for, são justamente essas alminhas, que tanto falam em alteridade, em procurar compreender o outro que são incapazes de compadecer-se dessas pessoas que, até então, apenas desejavam viver suas vidas em paz até que as estereotipadas vítimas do tal sistema resolveram vacilar e, de mãos dadas com as potestades estatais, afrontar a sua paciência.

Aí, meu caro Watson, não adianta protestar contra o leite derramado.

(iv)

A afirmação da busca pelo prazer como se fosse sinônimo da busca pela felicidade não é, de modo algum, como prega a mentalidade contemporânea, a mais excelsa forma de afirmação da liberdade individual. Não mesmo.

Na real, tal busca é o caminho certo para a escravização da alma humana ao que há de mais baixo em nossa natureza, tornando-nos subservientes justamente àqueles que diziam – e dizem - que tal procura hedonista seria um inalienável direito fundamental todinho nosso.

Enfim, da mesma forma que facilmente se engana uma criança com um docinho, hoje, grupelhos totalitários fazem de trouxas cidadãos que pensam que seus umbigos desejosos são ao mesmo tempo o centro do mundo e a coluna de sustentação duma tal democracia. Só que não.

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Sobre o Autor

Cristão católico por confissão, caipira por convicção, professor por ofício, poeta por teimosia, radialista por insistência, palestrante por zoeira, escrevinhador por não ter mais o que fazer e bebedor de café resoluto.