20/12/2016 12:49:00

TERROR
Como um assassinato cinematográfico expôs o conflito Rússia-Turquia
A morte do embaixador russo na Turquia, nesta segunda (19) em Ancara, joga ainda mais o foco das atenções internacionais no violento conflito na Síria


O atirador tinha 22 anos e foi morto (Foto: Associated Press)


Por Rafael Nardini, do HuffPost Brasil

Ancara - A morte do embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov, 62 anos, nesta segunda (19) em Ancara, joga ainda mais o foco das atenções internacionais no violento conflito na Síria. Karlov estava à frente da embaixada da Rússia na capital turca desde 2013 e foi atingido enquanto visitava uma exposição de arte.

"Hoje em Ancara, como resultado de um ataque, o embaixador da Federação Russa na Turquia, Andrey Gennadyevich Karlov, recebeu um ferimento do qual ele morreu", disse Maria Zakharova, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia. "Nós consideramos ser um ato terrorista", completou.

Segundo o The New York Times, o atirador, que vestia terno escuro e gravata, foi visto em imagens de vídeo do assalto gritando em árabe:

"Deus é ótimo! Aqueles que prometeram lealdade a Muhammad pela jihad. Deus é bom!"

Depois, ele teria gritado em turco: "Não se esqueça de Aleppo, não se esqueçam da Síria! Passo para trás! Passo para trás! Só a morte pode me levar daqui!".

O ATIRADOR 

O atirador foi identificado, segundo as agências internacionais ANSA e EFE, como o policial turco Mevlüt Mert Altintas. Ele tinha 22 anos e acabou capturado e morto após os ataques.

Ele fazia parte do departamento especial de Polícia de Ancara e tinha entrado na corporação em 2014. Altintas teve permissão para entrar no local do crime por conta da identidade de policial.

Não havia, até o momento da publicação da matéria, ligações explícitas do atirador com grupos terroristas.

XADREZ DIPLOMÁTICO

Andrei Karlov, momentos antes do ataque em Ancara

Rússia e Turquia estão envolvidas no conflito da Síria de lados opostos. Ancara se opõe firmemente ao presidente sírio, Bashar al-Assad, enquanto o Kremlin vem mobilizando tropas e a Força Aérea em apoio ao líder sírio.

Para o The New York Times, o ataque acaba elevando a temperatura diplomática:

"O assassinato levou instantaneamente as relações entre a Turquia e a Rússia para um novo nível de crise sobre o prolongado conflito sírio, ao sul da Turquia. Ele acontece depois de dias de protestos dos turcos irritados com o apoio da Rússia ao governo da Síria no conflito e ao papel russo nos assassinatos e destruição em Aleppo, a cidade do norte da Síria."

A Vox, outros órgão de imprensa dos EUA, lembra os lados opostos dos governos turco e russo no conflito que tem destruído a Aleppo e vitimado milhares de civis.

"Os ataques aéreos dos governos russo e sírio na cidade de Aleppo, foco central dos ataques desde o ano passado, têm como alvos bairros civis, escolas, hospitais e comboios de ajuda humanitária, além do Estado Islâmico e rebeldes. De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos baseado no Reino Unido, mais de 9 mil pessoas, incluindo quase 4 mil civis, foram mortas em um ano de ataques aéreos russos na Síria.

A Turquia também está envolvida na guerra na Síria - embora não do mesmo lado da Rússia. A Turquia é um aliado da OTAN e parte da luta liderada pelos EUA contra o EI no Iraque e na Síria. Os turcos também apoiam alguns rebeldes que estão lutando para expulsar o regime Assad."

E continua a análise a jornalista Jennifer Williams:

"É muito cedo para saber que impacto - se é que vai haver - o assassinato do embaixador russo terá sobre as relações Turquia-Rússia ou a política da Rússia na Síria. Na verdade, o tiroteio ocorre apenas um dia antes da viagem agendada do ministro das Relações Exteriores da Turquia para Moscou para uma reunião com diplomatas russos e iranianos sobre a situação na Síria. O que é certo, porém, é que este ato criminoso torna uma situação já extremamente complicada em algo ainda mais frágil - e ainda mais perigoso."

A CNN, por sua vez, lembra que a Rússia é o "mais poderoso aliado de Assad".

"Como um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, a Rússia também usou seus poderes de veto para bloquear uma solução política para acabar com a guerra.

"Nossa tarefa é estabilizar o governo legítimo e criar condições para um compromisso político ... por meios militares, é claro", disse Putin à estatal Rússia 24 TV em setembro.

O bombardeio de Moscou contra a Síria atraiu críticas de potências ocidentais, com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, acusando sexta-feira a Rússia de matar civis na cidade sitiada de Aleppo.

"A responsabilidade por essa brutalidade está em um único lugar: o regime de Assad e seus aliados Rússia e Irã", disse Obama durante uma conferência de imprensa. "O sangue por essas atrocidades está em suas mãos.""

PUTIN E ERDOGAN FALAM

Segundo a Reuters, o presidente turco, Tayyip Erdogan, conversou com Putin e ambos concordaram que o assassinato do embaixador da Rússia em Ancara por um homem armado "foi um ato de provocação por parte de pessoas interessadas em prejudicar as relações entre os dois países".

Em mensagem por vídeo, Erdogan disse que as relações entre os países são vitais para a região.

Putin, por sua vez, também em comentários transmitidos pela televisão local, ordenou que a segurança nas embaixadas russas ao redor do mundo fosse intensificada e disse que queria saber quem havia "dirigido" as mãos do atirador.

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