22/03/2016 15:00:00
Um país em decomposição

Se o judiciário está polarizado, imagine o cidadão comum. É assim que o cenário está, por um lado, trágico e, por outro, deprimente. Um país em decomposição onde os  radicais e os abutres não escolhem partidos, ambiente jurídico e redes sociais. Os abutres não têm pátria. Estão por todo lugar.

Concordo com a tese de que as manifestações, mesmo aquelas consideradas legítimas e empolgantes, não criaram condições razoáveis para a formação de um novo governo que acalme o País.  Mesmo que o assunto renda posições polarizadas, entendo que a maioria absoluta de manifestantes contrários ao Governo Dilma e raivosos com a possível presença de Lula em um Ministério não estão a favor de lideranças de oposição, mesmo que este seja o argumento favorito de petistas e simpatizantes de alguns Movimentos Sociais e do Governo Dilma. O contrário, por sua vez, está mais caracterizado, ou seja, a maioria absoluta de manifestantes favoráveis ao Governo Dilma e apoiadores da presença de Lula em cargo oficial estão a favor daqueles que lá estão. Esta parece ser a grande diferença.   Não se deve ter solidariedade com um governo envolvido até a alma em casos de corrupção. Este fenômeno está claro, tão claro que o que ocorreu na cúpula do Poder Federal pode ser resumido como “o que se mostrou em si mesmo e o que se provou”.

Se o processo de impeachment de Dilma avançar [e parece que vai] ele seria organizado por pessoas [agentes políticos] que estão a caminho da cadeia [leia-se Eduardo Cunha e Renan Calheiros] e por partidos suspeitos com velhas e novas corrupções [leia-se PMDB e PSDB].  Hipoteticamente se o impeachment da chapa vitoriosa nas últimas eleições for avalizado pelo STF, podemos ter novas eleições. Se forem realizadas novas eleições, o que pode ser perfeitamente possível, ficam questões como: como se comportaria a oposição ? Como se comportaria o eleitor?  Há lideranças que podem propor em curto prazo uma conciliação e união nacional para recuperar parte do que já perdemos?  A oposição estaria unida?  Por outro lado, se o processo de impeachment demorar [não podemos descartar esta hipótese], o (a) novo (a) presidente teria que ser eleito (a) indiretamente por um Congresso desacreditado.

Algumas lições podem ser apreendidas por muitos brasileiros. Uma delas é que quando alguém chega ao poder é muito difícil que o solte.  Neste sentido, estou cada vez mais convencido de que a energia criativa, a energia coletiva capaz de mudar nosso País, Estado e Cidade está no que eu chamo de "pessoas comuns organizadas para um protagonismo diferente". Pessoas comuns estão cada vez mais distantes de forças tradicionais da política. Os interesses são completamente diferentes. A aproximação está cada vez mais distante. Podemos imaginar um diálogo entre Zé Dirceu ou Aécio Neves com um indignado do Movimento Passe Livre ou um Professor convencional da Rede Pública?  Seria um diálogo de surdo e mudo.

O argumento de seletividade ou partidarização do judiciário não pode ser jogado para debaixo do tapete, mas o momento exige objetividade e celeridade. Portanto, ao que parece, não é hora de discutir regras jurídicas para construir um navio resistente, mas sim colocar para funcionar, no mínimo, botes salva-vidas. 

Temos a chance do novo, mas em hipótese alguma um novo que esconde vínculos com o velho, pois em nosso país, infelizmente, a chance do novo passou pela repetição do mesmo, gerando a deterioração daquilo que é caro para a boa política: o assassinato ou o suicídio do espírito público.  

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