27/10/2016 13:53:00
A luta continua!

A história nos mostra que o movimento estudantil foi um dos principais protagonistas da luta contra o regime militar no Brasil. Impulsionados peIa força contrária ao autoritarismo e a repressão, estudantes enfrentaram as forças repressoras, dispostas a massacrar jovens idealistas e contestadores, ou qualquer um que simpatizasse com ideias consideradas subversivas. Lutavam por um mundo melhor e mais justo, para tornar realidade seus sonhos tidos como revolucionários, defendiam a liberdade e os direitos humanos. Um pouco mais tarde, no embalo da série global 'Anos Rebeldes', jovens voltaram às ruas, então com a cara pintada e pediram o impeachment do ex-presidente Collor. Seu grito reivindicatório, o seu posicionamento político perante o Estado durante a ditadura militar brasileira que mutilou, que torturou, que assassinou, manchando de sangue páginas da história, estão cristalizados no imaginário social como o seu grande momento. O ano de 1968 é o que retrata mais expressivamente a sua importância.

A partir daí, ficou é visível, no entanto, que comparado à força e ao protagonismo dos anos 70 e 80, o movimento estudantil  fez que adormeceu, ao apresentar-se com menor presença, representatividade e continuidade organizativa. Mas ele espalhou-se de forma segmentada nos movimentos sociais, agora inscritos num outro paradigma de participação e ação coletiva. Trazem nas suas entranhas os elementos, estratégias e repertórios característicos do referencial teórico dos novos Movimentos Sociais. Temos ai temáticas da causa negra, de gênero, da cultura, da paz, e agora com um movimento estudantil que reage, que ocupa, que luta contra os ditames de um governo que teima em editar uma Medida Provisória que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, desconsiderando a opinião dos estudantes, dos pesquisadores e dos professores que sabem, mais do que ninguém, o que acontece nas salas de aula ou será que eles não estão cientes da necessidade de mudanças no ensino médio? A evasão escolar que o diga. Mas, será que é certo substituir graduados por “profissionais com notório saber”? Não estou dizendo que estes não tenham o seu valor. E quanto ao fim da obrigatoriedade do ensino de Arte e Educação Física? Da maneira como está o projeto, disciplinas como Filosofia e Sociologia podem desaparecer completamente dos currículos. A Medida Provisória do presidente Michel Temer contraria a própria legislação que diz que a educação básica deve qualificar para o trabalho, mas também assegurar uma formação para o exercício da cidadania. Aliás, exemplo dado pela estudante Ana Julia, adolescente que “colocou no bolso” aqueles que são eleitos para fazer as leis, é a maior comprovação de que nem tudo está perdido nesta Nação. Os adolescentes, os jovens, estão ai, sim, amadurecidos, politizados, e como ela mesmo disse, transformados em cidadãos que lutam pelos seus direitos, que acreditam, quer querem um novo Brasil a partir dos seus próprios conceitos. Que não se deixam abater pelo autoritarismo, quer seja na esfera municipal, estadual ou federal. Por isso, dizem não quando são aviltados em seus direitos, principalmente, quando o assunto é a tão desgastada educação. Que não aceitam mais as imposições, que repudiam o projeto unilateral que impõem a “lei da mordaça”, que cala, que subjuga, que exclui. “Uma escola sem partido é uma escola sem senso crítico, é racista, é homofóbica... é formar um exército de não pensantes que ouvem, abaixam a cabeça.... esse projeto nos humilha, nos diz que somos incapazes”. Alguém quer mais do que esse desabafo feito por uma adolescente na tribuna da Assembleia Legislativa do Estado? Esses estudantes conscientes nascem no berço de movimentos, sim, sejam estudantis, sociais, mas identificados com uma cultura associativistas, solidária, transformadora. Esses ativistas fazem parte da identidade e destino da universidade pública. Sem um movimento estudantil ativo, crítico, criativo é a própria sorte da universidade, da escola, que fica exposta aos vícios do privatismo, do conservadorismo. 

Com essa ocupações, com essa reação, seguramente, o movimento estudantil não morreu. Pelo contrário, ele está vivo e continua gerando políticos. Em Guarapuava, dois vereadores foram eleitos, recentemente, oriundos do movimento estudantil. Será que eles foram ser solidários com a sua classe durante as ocupações? Será que subirão na tribuna em defesa da melhoria da qualidade de ensino? Será que o movimento estudantil, embrião desses novos políticos, será protagonista também dessa cobrança? Como se vê a luta está apenas começando. 

Sobre o Blog

Cristina Esteche é jornalista, publicitária e fundadora da Rede Sul de Notícias.