28/01/2016 13:08:00
Não teremos mais a adesão pela adesão

O cenário político não tem se modificado. Não há muito que esperar, aliás, estamos tendo cada vez menos respostas humanas possíveis. Sendo assim, a expectativa está começando a mudar de função. De crescente passando a decrescente. Teoricamente, em política sempre esperávamos alguma coisa, no mínimo a inauguração de algo novo. No entanto, cada vez mais pessoas comuns estão cansadas de esperar. Assiste-se a um processo de pessoas encolhidas, esperando o pior.

Sinceramente, responda-me: os atuais políticos tem algo novo a nos contar?

Ao que tudo indica, o horizonte mais justo seria o impeachment de todos ou quase todos. Primeira grande questão: como viver sem ser engolido pelo sistema político ?

Parece-me que se ainda há algum espaço para uma nova sensibilidade democrática, este espaço deve vir de fora e em oposição ao atual sistema político. Reconheço, contudo, que isto implica em emitir ideias e defender posições pouco comuns no meio político e quem opta por este caminho acaba sendo mal entendido ou atropelado. Muitos profissionais da política ou pessoas comprometidas com o sistema político não se conformam com tais ideias e fazem o possível e o impossível em violar permanentemente o que entendemos por debate público saudável e necessário.

Infelizmente, a política como está, desmancha-se entre o ‘salve-se quem puder’ e o ‘cada um por si’, levando cidadãos normais à defesa da anti-política.

Sobre este perigo, sabe-se que Freud foi acusado por seu oponente de ficar em cima do muro durante uma discussão política, de não ser nem isto nem aquilo. "O Sr. não é nem branco, nem preto!", teria dito seu desafeto. Freud respondeu: "Não sou mesmo, pois acredito que temos que ser da cor da carne, sem pele, isto é, sem qualquer identidade partidária.”

Com isto quero dizer que hoje, com tanta nebulosidade, está difícil ter um conhecimento preciso em política. No máximo o que existe hoje são conjecturas.

É comum encontrarmos alguns comprometidos com o sistema político defendendo a tese de que não haveria que confrontar imoralidade a moralidade, mas pensar a política como uma área incolor, distante da utopia e muito próxima do pragmatismo na qual o político devia poder agir para obter resultados. Estes insistem na tese de que desde que haja transparência no exercício das decisões, não é errado pensar pragmaticamente a política.  Assim é comum ouvir: “bom, faço uma política de resultados, e quando os resultados não se apresentam pulo e começo a invocar princípios como pretexto ou desculpa para meu fracasso”.

Talvez seja por isso que, apesar da movimentação de políticos de toda sorte, vejo poucas pessoas com disposição para aderir a este ou aquele discurso. Foi Contardo Calligaris que escreveu recentemente: “a vontade de aderir a qualquer partido (...) é quase uma falha moral, que corresponde ao anseio de se perder numa coletividade para poder descansar da tarefa de inventar pensamentos e critérios próprios”.

Neste sentido, a adesão pela adesão, como sempre foi, encoraja a pessoa a renunciar à sua plena capacidade de pensar por si mesmo.

A ciência de que poucos vão ‘aderir’ parece ser aquilo que o político mais odeia. A sociedade, um pouco mais esclarecida, começa a perceber que o poder por si só acaba se intoxicando, entrando em agonia, sendo destruído pela própria toxina. O que sei é que a coisa chegou a um extremo tal que está quase impossível acabar com a dívida perpétua e com a desigualdade crônica, daí nossa expectativa sempre mais decrescente.

 

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