30/11/2016 10:08:00
A placenta que vai para o lixo pode salvar nossa visão

Está difícil escapar destes inúmeros dispositivos que nos enquadram e nos controlam, que tal qual um imã atraem muitas pessoas para uma visão narcísica de um fechamento quase sem volta. É impressionante como as questões coletivas estão sendo deixadas para um terceiro ou quarto plano. A grande sacada agora é sobreviver neste estado de exceção onde não sabemos o que vai acontecer daqui a pouco.

Esta tendência massacrante de individualizar tudo, além de ser mais eficiente do que tudo, utiliza-se do pouco tempo e da pouca articulação que temos, para acelerar tudo no privado, no lucro e na competência excludente.  Há uma pressa excessiva do atual governo federal, quase um tratamento de choque. Tudo ou quase tudo o que se faz hoje no governo federal tem a marca da pressa e de que somente assim o Brasil poderá ser salvo. Leia-se várias PECs, várias reformas, vários cortes, enfim, tudo o que tem o nome de ‘austeridade’. Sem entender o que está acontecendo, a grande maioria tende a dar crédito à tese de que é assim mesmo e que devemos nos acostumar com este veredicto.

Ora, uma reforma no ensino médio não pode caminhar para o tecnicismo atropelando legados importantes sem uma profunda discussão para saber se este é o melhor encaminhamento. Uma reforma política não pode ir para pior do que estamos. A política não deveria ir para os extremos como está indo e muito menos achar normal que questões particulares sejam tratadas como públicas como é o caso do apartamento de Salvador.

Se a esquerda tem sido incapaz de ler a realidade sem ruídos e promover uma alternativa econômica ao que está aí, temos que inventar outra categoria mediana que possa passar a todos o mínimo de confiança.

O assassinato cometido por um Pai ao próprio filho por questões meramente ideológicas foi emblemático demais e confirma a crise de identidade que estamos atravessando nesta tensão ideológica causada pela crise política e econômica.

Assim, a categoria ideológica, do jeito que está, tem dividido famílias, colocando filhos e pais em oposição, separando amigos, gerando intrigas entre vizinhos e colegas de trabalho, jogando alunos contra professores e vice-versa, destruindo a comunidade necessária entre quem ensina e quem aprende, fazendo o ódio vencer o afeto, enfim, o pacto civilizatório e a normalidade das relações humanas estão se corroendo. Eu nunca vi isto com tanta intensidade.

A esquerda bota a culpa na direita crescente e a direita debita esta mesma conta para uma esquerda cada vez mais perdida. Esquece-se de entender o que de fato precisa ser entendido, ou seja, precisamos resgatar laços que nos une com diálogo e abertura, jogando para fora o que não deu certo e inspirando-se em experiências bem sucedidas sejam aquelas de nosso próprio País ou da Noruega.

Tal como cegos que precisam enxergar,  urge que aproveitemos a placenta que vai para o lixo para salvar nossa visão. 

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Sobre o Blog

Autor do livro Estratégias políticas de instâncias locais, Claudio Andrade é graduado em Filosofia e Doutor em História e Sociedade pela UNESP. Atualmente é Professor do Departamento de Filosofia da UNICENTRO e Coordenador do Curso de Especialização Ensino de Sociologia e escreve sobre política no blog www.guarapuavatube.com.br