A ESTÚPIDA CEGUEIRA IDEOLÓGICA

No final da década de oitenta o compositor Cazuza alardeava nas rádios: “Ideologia, eu quero uma para viver”. E desde então esta palavra tem ganhado destaque em nossas vidas, principalmente a partir do ocaso do governo da Senhora Houssef e no preâmbulo da presidência do Senhor Messias.

A palavra em si foi criada, no século XVIII, pelo filósofo francês Desttut de Tracy para definir uma ciência de procura estudar a formação e a origem das ideias. Com o passar do tempo ela veio tomando outras conotações, a maioria neutra, até ser estudada a fundo pelo Karl (o tal de Marx) e, a partir daí se instituiu o cunho crítico pelo qual reconhecemos a palavra nos dia de hoje.

A ideia aqui não é polemizar e sim tentar entender os excessos e, principalmente, a CEGUEIRA que a ideologia acomete alguns militantes, tanto de esquerda quando de direita. O caso mais recente deste tipo de cegueira causada pela doutrinação ideológica foi o áudio do padre jesuíta Francisco Secchim, simpaticamente conhecido por aí como padre Kiko, brasileiro que, sabe lá porque (deve ter ido visitar o Chaves), está no Reino encantado do Senhor Maduro. No citado áudio ele, utilizando-se daquele velho discurso anti-imperialista característico de quem é militante de esquerda, diz que a mídia em geral e os Estados Unidos criaram um “um show midiático para gerar pressão e instabilidade naquele país” e que “Eles querem derrotar o governo para pôr a mão no petróleo. Não é uma questão humanitária. O povo não está morrendo. Acho que no Brasil tem muito mais miserável do que aqui. Se há país que tem violência, fome e miséria, não é aqui na Venezuela.” Ainda, de acordo com Kiko, “a vida está normal e não tem nenhum problema”.

Talvez o único dado correto seja sobre a quantidade de miseráveis; mesmo porque aquela República Bolivariana só possui cerca de 31 milhões de pessoas e aqui somos mais de 200 milhões, então, estatisticamente pode ser que tenhamos, lamentavelmente, mais miseráveis do que lá. Todavia, questiono que grau de miopia ideológica este religioso possui para não enxergar os fatos. É muita ingenuidade dele acreditar que este povo todo quer sair da “normalidade” para viver sem teto e sem emprego nos países vizinhos. Que os mercados não estão desabastecidos, que a inflação de lá não é de 1.700.000%, que o Nicolás não é um ditador que herdou por acaso o reino do Senhor Chaves e conseguiu piorá-lo ainda mais. Não, no caso desta pessoa não é ingenuidade ou falta de conhecimento pois, como bem me disse recentemente um jovem mestre historiador e filósofo, que estuda a fundo estes assuntos, os padres jesuítas estão entre aqueles religiosos que possuem a formação mais extensa na carreira clerical, portanto, não é ignorância. O Kiko, assim como muitos militantes (repito, tanto de esquerda quanto de direita) simplesmente preferem abdicar da luz e crer piamente em suas ideologias, abrindo seus olhos somente quando as coisas estão de acordo com elas.

A cegueira ideológica do pessoal da extrema direita normalmente descamba para aquele conservadorismo insensato que traz consigo toda uma gama de intolerância racial, religiosa, social ou sexual e, não raro, episódios de violência.

Em suma, discordo do jovem Cazuza e digo que NÃO precisamos de uma ideologia para viver. Uma ideologia nos torna gado e Zé Ramalho diz, ironicamente: Êeeeeh! Oh! Oh! Vida de gado, Povo marcado, Êh! Povo feliz! Uma ideologia, como diz o título desta coluna, nos deixa estupidamente cegos.

VIRTUS IN MEDIUM EST

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