A expedição de 1810!

(*) Por Zilma Haick Dalla Vecchia

Há exatamente 210 anos, muita chuva! Frio intenso! Neve!<
Foram essas as condições climáticas que as 300 pessoas que compunham a Real Expedição de Conquista e Povoamento dos Campos de Guarapuava encontraram aqui, onde é hoje o Distrito de Palmeirinha, aos 17 de junho de 1810, dia da Santíssima Trindade, às 10 horas da manhã!
A nossa história está intimamente relacionada à chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, em 1808. O Príncipe Regente, Dom João, tinha interesse em conquistar e povoar a vasta região conhecida como Campos de Guarapuava para o Reino de Portugal, Brasil e Algarves, para impedir o avanço castelhano no Brasil Meridional, abrir caminhos para o sul, explorar metais preciosos na região e catequizar os índios.
Já em 05 de novembro de 1808 e 1º de abril de 1809, D. João expedia Cartas Régias, determinando, na primeira, guerra contra os índios e a política sobre a ocupação e colonização dos Campos de Guarapuava e, na outra, a revogação das ordens sobre a dizimação dos índios, a nomeação de Diogo Pinto de Azevedo Portugal para comandante da expedição, o envio da expedição, além de outros detalhes sobre essa ocupação.
Os Campos de Guarapuava correspondiam a uma região muito grande que interessava ao governo português. Se não fosse ocupada logo, pela posse e colonização, os portugueses perderiam essa vasta região para os espanhóis. O Paraná ainda não existia. O seu território era a 5ª Comarca de São Paulo que vai se desmembrar somente em 1853. Então, pode-se dizer que a maior parte da 5ª Comarca de São Paulo era o que se chamava de Campos de Guarapuava.De agosto a junho de 1810, a expedição “rompeu e atravessou o sertão de matos entre os campos gerais de Curitiba e Guarapuava”, seguindo, em parte, o caminho trilhado pela expedição de Cândido Xavier que chegou aos Campos de Guarapuava quase quarenta anos antes.
No dia da chegada, 17 de junho, depois do reconhecimento do terreno, debaixo de uma tolda, foi celebrada uma missa cantada dando-se o nome da comemoração do dia aos ditos campos, isto é, Trindade. (Daí o nome dado às fazendas localizadas naquele local).
O comandante Azevedo Portugal relatou que, em 18 de junho, construiu uma pequena ponte sobre o Rio Coutinho. No dia seguinte, fez uma exploração da região num raio de 10 léguas, mais ou menos e, chegou às barrancas do Rio Jordão, dez dias depois da chegada da expedição. No final de junho e primeiros dias de julho, a neve que caiu determinou a necessidade da construção de uma povoação denominada Atalaia, nome que proveio da ereção da primeira obra, uma sentinela, uma “atalaia” que permitia enxergar uma grande extensão dos campos ao seu redor. Eles tinham receio do ataque dos índios habitantes da região que haviam dizimado parte da expedição de Afonso Botelho.
Em meados de julho, 30 ou 40 índios se aproximaram do acampamento dando sinais de quererem estabelecer uma relação pacífica com os expedicionários que permitiram a sua entrada no acampamento. Foi um relacionamento amistoso marcado por sinais e gestos já que nem os portugueses entendiam o que os índios falavam e nem tampouco os índios entendiam uma só palavra da língua portuguesa. No dia 29 de agosto, eles reapareceram em grande número, agora como “inimigos atacando o mesmo Destacamento e lançando fogo aos ranchos”. Durante seis horas, Antônio da Rocha Loures, o Capitão Rocha defendeu Atalaia desse ataque.
Um dos objetivos da expedição era catequisar os índios. Esse trabalho foi realizado pelo Padre Chagas principalmente, durante o ano de 1816, auxiliado pelo índio Pahy. O Padre Francisco das Chagas Lima viveu em Guarapuava de 1810 a 1828.
A expedição comandada por Diogo Pinto de Azevedo Portugal foi imortalizada no monumento existente na rótula que dá acesso ao Bairro Bonsucesso. Na base desse monumento, em um dos lados, pode-se ler: “Apesar da friagem, que belas paisagens! Que ar puro! Que água pura! Como há de ser bom viver aqui! Louvado seja Deus!” (AZEVEDO MACEDO, F.R. Conquista pacífica de Guarapuava.  Curitiba: GERPA, 1951.  p. 133).
As expedições de Cândido Xavier, Afonso Botelho e Francisco Martins Lustosa, apesar de terem chegado antes da expedição de 1810, não efetivaram a conquista e o povoamento dos Campos de Guarapuava. Isso só vai acontecer com a expedição de 1810, resultado de um plano político, econômico e religioso do governo português que tinha a finalidade de impedir a ocupação dos campos pelos espanhóis.
Seguindo as instruções e as orientações da Junta da Real Expedição e Conquista, procedeu-se à exploração da região e à consulta aos expedicionários para que se escolhesse o local definitivo onde seria erigida uma nova povoação para os portugueses, em separado da povoação dos índios que ficariam em Atalaia. Decidiu-se pelo “[…] ponto já conhecido pela denominação do Pontão das Estacadas, no Campo Real”. Houve então, o voto contrário do Padre Chagas que determinou o posterior abandono das construções no Campo Real.
Mais tarde, o Decreto Real de 19 de agosto de 1818, confirmado pelo Alvará de 11 de novembro do mesmo ano, determinava a ereção de uma igreja sob a invocação de Nossa Senhora de Belém, que vai dar origem à Freguesia, isto é, uma povoação sob o ponto de vista eclesiástico, um conjunto de paroquianos. Em 9 de dezembro de 1819, o Padre Chagas e Rocha Loures, redigiram um importante documento que definia o local onde essa freguesia deveria ser instalada, observando-se as formalidades reais determinadas na Carta Régia de 1809.
Somente em 1821, a população portuguesa foi transferida para a Freguesia de Nossa Senhora de Belém que vai ser elevada à condição de Vila, em 1852.
Em 12 de abril de 1871, pela Lei Provincial Nº. 271, a Vila passou a ser a Cidade de Guarapuava.No imenso espaço dos Campos de Guarapuava, posteriormente, nasceram muitas outras cidades, além de Guarapuava. Utilizando-se dos quadros criados por Eduardo Americano, no seu trabalho de conclusão de curso em Geografia, intitulado: A transformação físico-territorial do município de Guarapuava-PR, e a tese de doutoramento da professora da Unicentro, orientadora de Eduardo Americano, Doutora Marquiana de Freitas Vilas Boas Gomes, intitulado: Trajetória socioambiental de Guarapuava: leituras da paisagem, verifica-se que, originalmente, 11 municípios foram desmembrados de Guarapuava. Cronologicamente, levando-se em conta a data das leis desses desmembramentos, são os seguintes municípios:

Palmas;Prudentópolis;Foz do Iguaçu;Pitanga;Laranjeiras do Sul;
Inácio Martins; Pinhão;Cantagalo;Turvo;Candói;Campina do Simão.
Nesse quadro, não foi considerado o desmembramento de parte do município de Cândido de Abreu, o Distrito de Thereza Cristina, originalmente, Colônia Thereza, na margem direita do Rio Ivaí, pela Lei n.º274 de 12 de abril de 1871, no mesmo dia em que Guarapuava foi elevada à condição de cidade, pela Lei nº. 271.
Nesses estudos é revelado um dado surpreendente: dos 399 municípios paranaenses, 199 têm sua história ligada, direta ou indiretamente, à história de Guarapuava. Nesses dados não estão consideradas algumas localidades do oeste de Santa Catarina que pertenciam ao território do Paraná e as diversas incursões ao território da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.
17 de junho de 1810 determina a definitiva ocupação e povoamento de Guarapuava! Essas quase 300 pessoas que compunham a expedição de 1810 que vieram com as suas famílias, vieram para ficar, para cultivar as terras, doadas em sesmarias, para aqui se estabelecer, ocupar e povoar definitivamente os Campos de Guarapuava!Foram eles que deram início à Guarapuava dos dias de hoje!
17 de junho é um dia a ser comemorado!
Lembrar o significado do 17 de junho é uma tarefa de todos nós! De você guarapuavano ou por você que mora em Guarapuava! Também por aqueles que já moraram aqui! É tarefa para você estudante de todos os níveis educacionais! Para você, professor! É também para você, funcionário municipal ou estadual! É tarefa para a autoridade civil, eclesiástica e militar! É tarefa para cada um de nós!

(*) Zilma Haick Dalla Vecchia é membro do Instituto Histórico de Guarapuava, da Academia de Letras, Arte e Ciências e da ADAU.

17 DE JUNHO, O DIA QUE GUARAPUAVA DEVERIA COMEMORAR

Em 17 de junho, às 10 horas, completam-se 210 anos da chegada da Real Expedição de Conquista e Povoamento dos Campos de Guarapuava!
Em 17 de junho de 1810, deu-se início à conquista, à ocupação e ao povoamento efetivo dos Campos de Guarapuava.
Campos de Guarapuava! Uma vasta extensão de terra cobiçada pelos reis de Portugal e Espanha. Àquela época, quem primeiro ocupasse uma região se tornava dono dela.
A Família Real Portuguesa chegou ao Brasil em 1808. Em 05 de novembro de 1808 e 1º de abril de 1809, o Príncipe Regente Dom João expedia Cartas Régias determinando, na primeira, a política sobre a ocupação e colonização dos Campos de Guarapuava e, na outra, o envio da expedição, além de outros detalhes sobre a ocupação e colonização daqueles campos. Nomeou Diogo Pinto de Azevedo Portugal para executar um plano de conquista do governo português, elaborado há muito tempo atrás, em 1772, que determinava: “157. Establecendonos … em Posto ventajoso, bem escolhido e bem imaginado nos Campos de Guarapuava; daly nos hiremos alargando, e estendendo o nosso Domínio à proporção das forças que tivermos”.
As 300 pessoas que compunham a expedição chegaram num dia de frio intenso e muita geada, no dia da Santíssima Trindade. Aos campos foi dado esse nome, Santíssima Trindade, que nunca foi utilizado por ninguém: eram os Campos de Guarapuava, para sempre!
O Distrito da Palmeirinha, em Atalaia, na região onde estão localizadas as Fazendas Trindade e Nova Trindade, foi o local escolhido para a fixação do “posto vantajoso”.A partir dali os portugueses foram alargando e estendendo o seu domínio.
De Atalaia partiu, em 1815, a expedição de Atanagildo Pinto Martins para ocupar e povoar o Planalto Médio do Rio Grande do Sul, deixando o seu nome registrado na história das cidades de Cruz Alta, Passo Fundo, Carazinho e Palmeira das Missões.
O Estado do Paraná ainda não existia. Estudos comprovam que, atualmente, dos 399 municípios que compõem o Estado, 199 originaram-se, direta ou indiretamente, de Guarapuava.
A cidade de Guarapuava originou-se da Freguesia de Nossa Senhora de Belém e esta, por sua vez, originou-se da povoação instalada no Fortim Atalaia que chegou em 17 de junho de 1810, com a Real Expedição de Conquista e Povoamento.
Por tudo isso, 17 de junho é um dia que Guarapuava deveria comemorar!
(*) Zilma Haick Dalla Vecchia é membro do IHG, da ALAC e da ADAU.

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