A força de quem busca o corpo sem vida do filho

A força de quem busca o corpo sem vida do filho

(Foto: Portal RSN)

Nunca consegui conviver com a morte. O rito funerário pra mim é macabro. As minhas perdas são irreparáveis. Levaram pedaços de mim. Nem chorar eu consigo. Porém, a profissão faz com que eu respire muito fundo e vá, não importa onde seja. Nem mesmo se esse lugar for o Instituto Médico Legal (IML).

Assim, me vi nessa condição desde a tarde de sábado (1), tendo continuidade na manhã dessa segunda (3). Nesses dois dias fui conversar com familiares de quatro homens que foram assassinados. E me deparei com mães. Duas delas, sozinhas. Elas e os corpos dos filhos. Essas mulheres tiveram que deixar a dor de lado para tratarem dos trâmites legais.

Nunca vi tanta dor e tanta força naquelas mulheres simples. Elas colocaram o desespero ‘in off’ para poder, mais tarde, devolverem seus filhos à terra. São mulheres guerreiras, que cuidam da casa, que trabalham para prover o lar, que vivem em assentamento, em bairro periférico. São mulheres que mais do que ninguém precisam do poder público. De serem acolhidas no pior momento de suas vidas.

Porém, são apenas mais uma, mais duas, mais números para a frieza de um órgão que é feito, que é comandando por pessoas, por gente. Assim, como essas mulheres que tiveram que voltar para a cidade de origem, sem poder levar os corpos dos filhos. São mulheres que transpassadas pela dor, passaram a noite em claro, esperando amanhecer o dia para voltarem em busca do cadáver daqueles que um dia geraram. Que educaram na esperança de lhes dar uma vida digna. Mas cuja dignidade não surgiu nem mesmo após a morte.

Culpa de quem? Dos funcionários do IML que são tão vítimas quanto essas e tantas outras famílias que vem suas vidas dilaceradas pela violência que faz de homens, seres miseráveis, cruéis? Culpa de quem? De um sistema de segurança falido? De um sistema que é falho com os vivos, imagine então com os mortos.

Assim, durante os minutos que estive no IML vi o desespero, a fragilidade de quem está sozinha numa cidade que não é sua. Sem as mínimas condições de ir de um lugar para o outro. Vi o empenho de funcionários que se desdobram para dar conta de tudo. São pessoas que estão fragilizadas tanto quanto as mães, tanto quanto os familiares que estão ali expondo a sua dor.

Percebi como somos vulneráveis, como somos frágeis, como somos frios diante do sofrimento dos outros. São caos invisíveis à sociedade que servem para despertar o interesse da sociedade para saciar o sadismo que mora dentro de cada de um de nós. Por tudo isso, confesso que acabei esquecendo do pavor que tenho da morte, da perda, de ver um corpo inerte.

Me preocupei, me solidarizei com o sofrimento explícito. Me tornei pequena perante a força daquelas mulheres. Me envergonhei de ter medo da morte. Quis mesmo, de alguma forma, ajudar quem estava ali, tentando os manter vivos.

Leia outras notícias no Portal RSN.

Comentários

WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com