A intolerância mata

“A lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos”. – Mahatma Gandhi

De que forma tratar um assunto tão delicado senão tentando entender, verdadeiramente, o sentido da palavra intolerância. De maneira alguma quero desrespeitar meu caro e paciente leitor crendo que ele não saiba o significado de um vocábulo tão falado e escrito nos dias atuais. Todavia, sabemos que muitas vezes utilizamos palavras em nossas argumentações das quais não sabemos o real significado e até as utilizamos de forma equivocada. Portanto, permito-me tentar aclarar esse conceito. Óbvio está que intolerância é falta de tolerância, que significa “tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às adotadas por si mesmo”. Pois bem, apesar desta palavra estar constantemente nas conversas e nas mídias, justamente por sermos cada vez mais intolerantes, não é de hoje que ela impera entre nós seres humanos. Ainda nos idos do século XVIII o filósofo Voltaire, no seu Dicionário Filosófico, questionava o que era a tolerância? Para ele “é o apanágio da humanidade. Somos todos cheios de fraquezas e de erros; perdoemo-nos reciprocamente as nossas tolices, tal é a primeira lei da natureza”. Palavras complicadas (a filosofia é cheia delas) que comprovam a antiguidade deste problema.

E ao que somos intolerantes? Basicamente a tudo que não é aquilo que somos ou que pensamos. Cada ser humano é único em sua subjetividade e, portanto, com suas próprias opiniões sobre tudo. Ou seja, mais de sete bilhões de criaturas que, em algum tema específico, acreditam estar certas e não aceitam a opinião ou postura do próximo. São diferenças de pensamento no campo racial, sexual, econômico, religioso, social, esportivo e por aí vai…

Falemos do futebol, por exemplo! A paixão nacional. A maioria de nós adora tanto o nosso time de futebol que, mesmo que ele esteja numa fase ruim, não conseguimos aceitar que outra equipe seja melhor que a nossa e quando ele perde foi porque o juiz roubou. Em 2014, ano da Copa do Mundo no Brasil, nós não fomos campeões mundiais de futebol (lembra do 7×1?), contudo, lamentavelmente, fomos recordistas mundiais de mortes em estádios de futebol. E agora, em 2018, continuamos liderando o ranking mundial de mortes. Falo do futebol porque é um assunto fácil, é um esporte, uma atividade agregadora e que não deveria ter nada de polêmico e, mesmo assim, gera uma intolerância tamanha que faz com que um indivíduo arranque um vaso sanitário e o arremesse do alto de um estádio de futebol e mate um outro torcedor (fato amplamente divulgado em 2014). Portando, se com um esporte temos a tendência de sermos intolerantes, com os demais assuntos temos a propensão de sermos muito mais.

Por estarmos vivendo um inédito e intenso período eleitoral percebe-se que a intolerância ideológica é a bola da vez e, na verdade, o que me motivou a escrever sobre este tema agora foi uma reportagem que vi, aqui mesmo na RSN, sobre um grupo de pessoas que marcou uma suástica no corpo de uma jovem em Porto Alegre (link no final do texto) e que, segundo a vítima, o motivo seria por causa da camiseta que ela vestia com dizeres contra um determinado candidato à presidência. O assunto, apesar de lamentável, é muito oportuno para debater o assunto em pauta. Se tudo ocorreu conforme consta do boletim de ocorrências registrado devemos, num primeiro momento, perceber o grau de intolerância demonstrado por este grupo que para afirmar seus preceitos ideológicos precisam “marcar” a vítima com um símbolo que aparentemente para eles, os agressores, remete ao modo de pensar do candidato que eles próprios defendem. Acontece que imediatamente surgiram, nas redes sociais, notícias e informações que tudo não passara de uma falsa agressão orquestrada pelo grupo em questão somente com o interesse de prejudicar o tal candidato. Pois bem, a polícia continua investigando o caso, entretanto, se assim foi devemos, novamente, perceber o mesmo grau de intolerância demonstrado pelo grupo. Ou seja, seja este execrável grupinho de pessoas apoiadores de um ou outro candidato o fato é que o ponto focal daquela matéria jornalística é a intolerância pura e simples. E todos nós, que já escolhemos um lado nesta disputa presidencial, mais ideológica de todos os tempos no Brasil, já que temos dois extremos bem definidos, um bem à esquerda e outro na extrema direita, estamos cada vez mais intolerantes com os outros, sejam os vizinhos, amigos e até mesmo com os nossos familiares mais próximos.

Os extremos são sempre perigosos. Segundo reza a lenda, Sidarta Gautama, que viria a ser conhecido como o Buda, vivia na opulência do palácio de seu pai e acreditava que esse modo de vida não era o verdadeiro e decidiu fugir para viver de maneira mais espiritual chegando, inclusive, a viver como um asceta, ou seja renegando todo e qualquer prazer mundano. Mas, nada disto o deixou satisfeito e completo e ele só atingiu sua iluminação quando ouviu um professor ensinando um jovem a afinar seu sitar (instrumento musical de cordas indiano), este mestre afirmou ao aluno que se ele deixasse as cordas muito frouxas elas não emitiriam o som, e ao contrário disto, se ele porventura as esticasse demais elas arrebentariam. A história, que pode até parecer um tanto quanto piegas para alguns, demonstra a doutrina filosófica do meio-termo que, se seguida, nos impele a evitar estes extremos tão radicais.

Dito isto, vem uma pergunta à mente: então devemos ser sempre tolerantes? Mesmo com os intolerantes? Aí poderíamos entrar em outro debate sem fim, o que considero não ser o caso nesta pequena e particular coluna. Não obstante isto, sugiro, a alguém que queira se aprofundar no tema, estudar o Paradoxo de Karl Popper que estudou esta questão no seu livro A Sociedade aberta e seus inimigos.

Mas, respondendo à questão que eu mesmo formulei acima, afirmo o seguinte: É claro! Que não! Acredito que, de modo geral, não devemos tolerar a violência, no entanto, devemos praticar a Tolerância Zero contra alguns tipos de brutalidades, tais como, todo e qualquer estupro, seja ele de mulheres, homens ou, o que é mais abominável, adolescentes e crianças. Citei somente este exemplo, porém, sabemos que existem muitos outros. Convido o leitor a participar deste debate citando, nos comentários abaixo, que tipo de violência específica não devemos jamais tolerar.

PS: Sou categórico em ratificar que esta Tolerância Zero não deve ser exercida com violência e sim com leis mais rigorosas e com um sistema prisional eficaz.

Agressores marcam suástica na barriga de jovem, em Porto Alegre

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