A saga da saúde pública

(Imagem: Ilustrativa/Pixabay)

Só pode falar, criticar, elogiar que estiver por dentro do assunto, quem tiver participado de um fato. Digo isso porque, muitas vezes, fui crítica ao atendimento de saúde pública de Guarapuava. E continuo sendo. Mas o que presenciei no último sábado (13) me credencia a contar o que vi e ouvi. Não quero aqui ser a “advogada do diabo” e nem tenho a pretensão de defender alguém. A minha intenção é contribuir para que as pessoas entendam como funciona a saúde pública e quais são as atribuições do município, antes de qualquer pré-julgamento.

Estávamos numa tarde agradável na casa do secretário de saúde de Guarapuava, Celso Góes e da sua companheira Katriane, a quem temos na lista seleta de amigos. Eram umas três horas da tarde quando o secretário começou a receber ligações telefônicas. Eram pessoas pedindo a sua intervenção para a transferência de um bebê recém-nascido, de uma das clínicas privadas para a UTI do Hospital São Vicente.

De nada adiantou o secretário explicar por inúmeras vezes, a cada ligação que recebia, que essa não era a atribuição do município, cuja responsabilidade começa nas unidades básicas de saúde e termina na UPA. De nada adiantou o secretário explicar que vagas em leitos hospitalares quem coordena é o Estado, a partir de uma Central de Leitos. De nada adiantou o secretário explicar que se o hospital não recebe é porque não há vagas disponíveis e que ele não tem poder para interferir. As ligações continuaram e cada vez mais insistentes.

Do outro lado, um pai desesperado dizendo que não possuía R$ 35 mil para uma despesa particular, que precisava do internamento pelo SUS já que a saúde do filho piorava a cada momento.

Vi um secretário sensibilizado, emocionado, entre uma ligação e outra para a hospital, para a 5ª Regional, para o Ministério Público. Naquelas horas, sim, foram mais de três horas de angústia que envolveram quem estava ali, foi possível ver como a burocracia coloca em risco a vida humana. Foi possível ter discernimento também de como essa burocracia é necessária para não tornar a situação fora do controle. Foi possível ver a atuação de um secretário com espírito humanitário, sensível ao problema do outro.

A conversa que rolava suave e que trazia ao momento presente histórias compartilhadas no passado, que nos fazia sentir saudade, rir de alegria por termo vividos momentos bons, e por continuarmos juntos, entre uma cervejinha e outra, deu lugar a um debate sobre mandos e desmandos, sobre vontade política, sobre uma administração comprometida com a pessoa, sobre um governo que não anda, por sofrer de uma paralisia cerebral que entorpece a quase todos. Falamos sobre pessoas que acham que tem o poder, que não é governamental, e que este será eterno, dando o direito de zombar, de julgar sem ter conhecimento. Falamos sobre a inversão de valores, sobre a falta de ética e de princípios.

Enquanto isso, os telefonemas continuaram, mas desta vez decisivos. Até que veio a boa notícia. A criança estava sendo transferida para o local e para o tratamento necessários. A partir disso, o alívio, a sensação do dever cumprido. Voltamos à cervejinha, à boa música, ao bate papo descontraído. De repente, um novo chamado. Um novo clamor. A noite chegou pegando o secretário ao telefone. Quanto a criança. Não tive mais notícias delas. Mas espero que o empenho que presenciei tenha valido a pena.

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