A serpente corre pelas redes sociais

Uma arma, uma uma mão, um gatilho, uma sentença. Um estampido, mais um e mais outro e mais outro e mais outro…….. Pronto! O ódio acabou com a vida de uma pessoa, e de outra, e de outra, e outra. O silêncio da noite, a cumplicidade calada e lá está o corpo estendido no chão. E mais um corpo, e outro corpo, e outro, e mais um corpo….. Parte da sociedade grita por justiça, chora, chora, chora e grita provocando um eco sem fim que acaba sendo engolido pela terra junto com o corpo que jaz, sem vida. Outra parte da sociedade vomita o sangue do ódio, o veneno da maldade e mata de novo, mata mais uma vez e outra e outra vez, encontrando a cumplicidade das redes sociais que engolem e vomitaç formando um mar, ondas que não tem fim.

A morte da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, na última quarta-feira (14), no Centro do Rio, é apenas mais um número na triste e infindável estatística tétrica da violência ímpar e institucionalizada que vigora no país. Pode uma desembargadora disseminar notícia falsa de que a vereadora era engajada com bandidos, como fez a  Marilia Catros Neves, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) e  com direito a postagem em rede social ? Pode um deputado federal, no caso, Alberto Fraga (DEM-DF), compartilhar boatos que estão se espalhando nas redes sociais sobre Marielle e ainda fazer acusações contra a vereadora? Pode o homem – no sentido humanidade – abaixar a cabeça e se deixar levar como se fosse uma manada humana e repetir, e continuar repetindo, e repetir ainda mais e mais e mais…..?

Mataram Marielle, a ativista dos direitos humanos, a mulher que amava a igual, a mãe, a favelada, a política, a voz de muitas outras mulheres que são caladas pelo medo. Junto com Marielle a morte deu carona para Anderson Gomes, o motorista, o pai, o esposo, o cidadão. Assim, na calada da noite, como se os dois fossem animais que estavam à espera do abate.

Que ódio é esse que ceifa vidas diariamente? Que inveja, que trai, que  desenha e determina a morte,  que apunhala pelas costas sem a menor compaixão como se fosse uma coisa corriqueira, como se nada estivesse acontecendo?

Que sociedade é essa que julga, que condena, que dilacera com palavras como se fosse uma serpente a correr pelas veias das redes sociais, destilando veneno, incentivando a morte, não só física, mas também moral. Já não basta mais executar, tem que manchar a história, principalmente se o condenado tiver uma ideologia de esquerda, se for voltado às minorias, às causas que quebram regras, que exercem o livre arbítrio? No Brasil, discurso ideológico agora decreta sentença de morte.

Porém, enquanto muitos, milhares, milhões, se “empoderam”, camuflados pelas redes sociais, os estampidos continuam. E cai mais um corpo, e outro, e mais um, e mais outro e……….. E um tecla e outro e outro tecla… e um vomita, e o outro engole, e outro vomita e mais outro engole. E os estampidos. Um aperta o gatilho, e outro dispara, e outro atira, e outro aperta o gatilho. Ouça! E tem outro estampido, e tem mais um, mais um, mais um……… e tem corpo, mais mil corpos, mais corpos, mais corpos. Todos ali, expostos em praça público sob o jugo da impunidade, numa afronta às instituições!

 

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