Às margens plácidas!

Estamos vivendo a Semana da Pátria, dias que remetem à independência do Brasil. Aquela do grito, de espada em punho, às margens do Riacho Ipiranga.

Programações sobre as festividades, que incluem o tradicional desfile, pautam o Portal RSN, a cada momento. Os pais adoram assistir os filhos que marcham no compasso 1,2, direito, esquerdo. Acrobacias de pequenas balizas, o toque do bumbo, a tilintar dos pratos de metal, o som emocionante dos clarins, a disciplina impecável na postura dos militares, as bandeirinhas verdes e amarelas nas mãos das criancinhas, são apenas alguns dos atrativos preparados para a parada cívica. Até há empresas que aproveitam para fazer o seu “merchan” na avenida.

E aí, paro, faço uma breve reflexão do momento atual e me pergunto: temos algo a comemorar nesta semana da Pátria? Senão vejamos: vivemos um momento de desmonte do país. Se o gigante despertou do berço esplêndido, ainda está anestesiado ou decidiu “botar pra quebrar”, no real sentido desse chavão. A realidade é nua, crua e cruel. Os dois principais adversários políticos para o comando do país estão em situações extremistas: O ex-presidente Lula, aquele que sempre defendeu as minorias, está preso. E sem entrar no mérito da tramoia, ou não, do seu confinamento, da sua exclusão das eleições onde poderia dar um banho de votos já no primeiro turno, o fato é que está inelegível por ter sido condenado por um colegiado e em segunda instância. Isso é fato! Infelizmente! O outro, o Jair Bolsonaro é uma pessoa abominável. Promete acabar com os direitos humanos, fuzilar os corruptos e os bandidos, colocar os civis sob a autoridade dos militares, subjugo às mulheres, e por aí vai. Tudo isso sob os aplausos dos seus seguidores. Pesquisas mostram que a criatura lidera entre ricos, brancos e homens.

Mas tudo isso é apenas consequência de um país que sempre marchou torto. Temos os piores genocídios, desde os tempos da escravidão dos negros e dos indígenas. A construção do Estado brasileiro é ocorrência direta de uma história de muita violência, de um colonialismo assassino e exterminador do povo indígena e africano”, como disse o historiador e coordenador da rede de cursinhos populares Uneafro, Douglas Belchior. “O Estado é a continuidade dessa estrutura de poder que nunca experimentou um rompimento”. Fato é o genocídio diário – sem exagero –  de jovens no trânsito, nas favelas, nos morros; de mulheres, vítimas de uma cultura machista brutal; da desigualdade social que passa pela desigualdade de oportunidade, resultado, de escolaridade, de renda, de gênero,  desnutrição, mortalidade infantil; enfim,  a violência ampla e irrestrita que permanece como uma chama viva a queimar o que não deve, enquanto outra fagulha, a do descaso transforma em cinzas a nossa história, o nosso passado, a nossa memória. Se o nosso passado ficou em chamas, qual será o nosso futuro? Qual será o futuro das novas gerações? Vamos estar na mira de metralhadoras institucionalizadas? Vamos viver num país em estado de exceção? Vamos marchar sobre o rufar de uma ditadura ou vamos engrossar as estatísticas de uma guerra civil oficializada? Sim, porque a guerra está aí. Basta ver com olhar crítico as brigas entre facções e outras mais. Bem a arma ainda está em nossas mãos. Bastar saber apertar o gatilho certo nas urnas, conforme a consciência política de cada um. Mas será que isso é possível num país de analfabetismo político? Sei lá, a coisa tá feia, mesmo. Mas enquanto tudo isso borbulha, o povo sorri, se enche de orgulho e aplaude as criancinhas – aquelas que mais do que nós dependem do futuro do país. Um, dois; direito, esquerdo… Está na hora de um novo grito: independência ou morte!

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