Até parece o samba do crioulo doido

Não faço a menor ideia de qual seja o gênero musical do presidente Jair Bolsonaro, mas que ele está patrocinando um samba do crioulo doido, ah! Isso está! Desde a campanha eleitoral, pelas polêmicas geradas por suas ideias e gestos – afinal, uma imagem pode valer muito mais do que mil palavras -, como prega uma das máximas do fotojornalismo -, confesso que não conseguia imaginar o que aconteceria no novo governo. Entre tantas afirmações machistas, preconceituosas e discriminatórias que lemos e ouvimos, cheguei a pensar que não seria possível acontecer mais nada, que todos os absurdos já tinham sido provocados, mas faço a “mea culpa”: me enganei. Ah! E como recheio tem as loucuras na ministra Damares, aquela que viu Jesus num pé de goiabeira e que tem um currículo ovacionado por muitas mulheres guarapuavanas. É isso mesmo. Vi muitos comentários favoráveis a ela nas redes sociais.

Mas o presidente em apenas 10 dias de governo continua engrossando o histórico de idas e vindas, envolvendo a reforma agrária, livros didáticos, o cai, mas não sai do presidente da Apex, o publicitário Alex Carreiro – que caiu em menos de sete dias, mas que nesta quinta (11), um dia após o anúncio da sua exoneração, continuou trabalhando normalmente e não aceita a demissão.

Até agora o governo voltou atrás em pelo menos sete decisões. A causa? Ou foram mal planejadas e/ou tiveram repercussão negativa. Mas o fato é que a falta de habilidade dos asseclas bolsonaristas emerge a cada dia que passa. E olha que estamos apenas na segunda semana de um mandato de quatro anos. E como disse o próprio presidente o Brasil não pode esperar, não há espaço para experimentações e nem para testes num laboratório chamada Brasília, onde o povo faz a vez de cobaia.

E em meio a essa instabilidade não posso esquecer de citar a “fome de poder” que já arvora o apetite de muitos por cargos com altos salários. Um dos casos é o filho do General Mourão, o vice presidente do Brasil, que foi promovido no Banco do Brasil e teve o salário triplicado chegando à casa dos R$ 32 mil. E como devemos “já ir se acostumando” – evoco aqui um bordão bolsonarista – , o presidente disse que não sabia de nada.

Mas vou me ater, novamente, às idas e vindas.

Um edital do Plano Nacional do Livro Didático, publicado no dia 2, abria brechas para a distribuição de livros sem referências bibliográficas. Além disso,

o parágrafo que exigia que as obras deveriam “retratar adequadamente a diversidade étnica da população brasileira, a pluralidade social e cultural do país” foi eliminado. Também ficou de fora o veto a propagandas e a erros de impressão e revisão. Jair voltou atrás.

Cinco dias após ter interrompida a política de reforma agrária em todo o país, o Incra voltou atrás.

E a ideia de uma base militar para o Estados Unidos no Brasil? Jair também voltou atrás porque a repercussão foi negativa junto aos militares.

Após anunciar a “despetização”  na Casa Civil, o ministro Onyx Lorenzoni teve que voltar atrás nas exonerações e levar de volta alguns petistas porque a saída desses servidores paralisou contratações e outros trâmites burocráticos do ministério.

E a área econômica também não passou sem trapalhada. Aliás, aí está o “terreno minado”  do novo governo. Quem não lembra da polêmica causada pelo anúncio de um decreto que provocaria o aumento da alíquota

Imposto sobre Operações Financeiras, o IOF? Depois de mais uma repercussão negativa, Onyx e o secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, horas depois, correram “apagar o fogo” negando qualquer possibilidade de isso acontecer.

E o pronunciamento do novo presidente da Caixa Econômica Federal no dia que foi empossado? Ele disse que a classe média iria pagar mais no crédito imobiliário. Com certeza, a mando do Jair, Pedro Guimarães, negou o aumento dos juros.

E que o dizer do filho do presidente, o deputado estadual eleito Flavio Bolsonaro e das suas transações, no mínimo, estranhas Fabrício Queiroz, que desconsiderou a ordem judicial para depor nesta quinta feira (10), no Ministério Público do rio de Janeiro?  Na terça (8), familiares de Fabrício Queiroz – ex-motorista e assessor de Flávio e que movimentou em sua conta R$ 1,2 milhão, segundo o Coaf – também não foram ao MP.

E olhe que isso é apenas o começo. Dizer que o governo está perdido e que tem o direito a um tempo até se encontrar, até vale. Mas como esperar que o melhor aconteça se o próprio Jair já confessou que não entende de economia; se o New York Times, principal veículo da imprensa dos Estados Unidos – a quem o presidente bate continência- disse em editorial desta quinta feira que “um ano fatídico começou para o Brasil”, referindo-se à “enxurrada de decretos de extrema direita”, assinados pelo Jair.

No texto “Jair Bolsonaro assume o poder. Com uma vingança”, o jornal americano diz que o novo presidente minou “as proteções ao meio ambiente, aos direitos indígenas à terra e à comunidade LGBT” e que as ações governistas “mostram um desempenho triste, mas não inesperado, do novo líder do Brasil, um ex-oficial militar cujos 27 anos no Congresso brasileiro foram notáveis apenas por insultos grosseiros a mulheres, minorias sexuais e negros.”

Como se vê, a letra do samba do crioulo doido, além de revelar um lado preconceituoso – segundo o Aurélio, se chamava de crioulos os negros nascidos no território americano (nomeadamente, no Brasil), para diferenciar esses cidadãos americanos negros daqueles que tinham chegado da África na qualidade de escravos –, nos mostra uma letra triste, um ritmo fúnebre, um cenário desalentador.

Mas como boa brasileira, ainda tenho a esperança e torço mesmo para que a orquestra encontre a afinação, o maestro use a batuta para harmonizar os músicos e o samba, esse ritmo verde e amarelo que faz sacolejar até os gringos mais desarticulados, retome o seu compasso. Afinal, assim como os demais brasileiros, danço no mesmo salão.

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