Cadê o Cristo pobre?

(Foto: Cléber Molleta/Central Cultura de Comunicação)

O mundo desabando, pegando fogo e eu parado nesta esquina, perto do muro.
As pessoas morrendo, matando, roubando e eu parado nesta bosta de esquina.
Os barracos sendo incendiados e eu, como imbecil parado nesta esquina.
Porque parar na droga da esquina é muito mais fácil, é tranquilo e seguro.
Quando o telefone toca, anotar os recados apenas é tão conveniente, é bom.
Para que sair desta zona de conforto e me machucar e me impregnar de fedor?
Por que deixar de ser um covarde e caminhar junto com os sem-terra, com os sem-vida?
Aqui, eu repasso o que ouço, amenizo as coisas e fica tudo certo, tudo uma beleza…

Esquinas abrigam imbecis como eu e outros tantos que só olham, riem e deixam para lá.
As esquinas são redutos de oportunistas, de covardes, de hipócritas, de políticos.
Que Cristo é este que também parou na esquina e observa a tudo rindo de escárnio?
Será que esta maldita cruz agora também é de espumas e não machuca?
O mundo pegando fogo, gente morrendo e eu parado nesta esquina!
Meninas se prostituindo e eu aqui, em meu carro, parado nesta esquina, rindo.
Há sangue nas mãos de políticos, grileiros, donos de cerealistas, mas fico na esquina.
Prefeitos não se metem em nada porque quere se eleger governador, formar bases.

Daqui, nada temo. Posso ver e dizer tudo. Posso ser quem eu quiser e me soltar.
Tenho emissoras nas mãos, tenho apoio dos meus chefes. Sou uma bosta, mas rio.
Nesta esquina há o muro e sobre o muro, eu fico. É fácil ficar. Equilibro-me.
Por sobre o muro é fácil fugir. A proteção é perfeita. Eu fico na esquina. Esgueiro-me.
Crianças com as panças cheias e lombrigas morrem, mas eu fico e olho e rio.
Sou a hipocrisia. Prego uma coisa só por pregar. Pus almofada na cruz.
Que se fodam os crucificados, os massacrados por tiros e cassetetes. Eu fico na esquina.
Se vier um vento contrário, o maldito muro me protege. Não temo nada.

Agora arrancaram as casas, queimaram mais barracos. Há velhos por lá.
Um menino grita, chora e esperneia, mas quem se importa? Cadê o Cristo pobre?
Eu não tenho nada com isso. Sou branco, tenho emprego fixo, vivo na esquina.
Elegi um Cristo de olhos azuis, um Cristo de cabelos longos, de corpo atlético.
Eu não gosto de Cristos cabeças-chatas, de Cristos negros e com unhas encravadas.
Meu Cristo vive em apartamentos e come salada, bebendo vitaminas. Cheira bem.
Este Cristo que elegi, não vai a invasões de terras, não pega na foice. É modelo.
Puta que pariu, mas o que eu estou fazendo nesta esquina? E você, o que faz aqui?

Sorriem os dirigentes desta política putrefata, desta porra toda. São donos.
À mesa com todos os bandidos, o Cristo eleito. Ele fuma charuto e bebe vinho.
Gritam os religiosos querendo público, vendendo CDs, óleos e o céu. Cobram caro.
Eu, você e esta sociedade medíocre, ficamos nesta esquina, só olhando.
Não há constrangimento, afinal, temos um Cristo próprio, somos brancos, ricos.
Juízes, advogados, prefeitos, religiosos e afins, são todos compráveis e baratos.
Vendem-se a troco de um cargo (vitalício) no tribunal de contas. Vendem-se.
E esta esfera putrefata chamada planeta explodindo e eu aqui, nesta esquina.

Os grileiros despejam dinheiro e derrubam as casas, matam pessoas.
Fodem com as mulheres e crianças. Tudo é da lei. Eles têm um Cristo de sucesso.
Metem fogo para resgatar as terras que roubaram de coitados. Ordem da justiça.
Pelos campos, as flores que nascem são fúnebres, são putrefatas.
Plantas regadas a sangue só servem para alimentar o ódio, a dor, o medo.
Mas eu fico nesta esquina, mesmo assim. Minha cruz tem almofada. Nada dói.
Já tomei minha vitamina hoje, já transei e posso rodar por aí despreocupado.
Nada temo, pois tenho emprego, um Cristo e uma esquina protegida por muros.

Por Jossan Karsten

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