Carta para Caio: relato sobre gestar em meio à pandemia.

RELATO SOBRE GESTAR EM MEIO À PANDEMIA!

Para Caio.

Meu filho,

Neste momento em que completamos 32 semanas da sua existência em meu ventre, o nosso país deve parar. Estamos vivendo uma pandemia mundial em função de um vírus chamado Covid – 19 que, embora não tenha alto índice de letalidade, se alastra muito rápido e por isso tem matado muita gente no planeta, especialmente os idosos e pessoas com baixa imunidade, pela falta de capacidade do sistema de saúde de atender aos casos que ficam graves.

O papai e a mamãe já estão trabalhando somente em casa e a determinação é para que as pessoas realmente só saiam em caso de urgência ou para comprar alimentos e remédios. Os seus primos João e Vitor, com 7 anos, também não estão mais indo pra escola e as aulas ainda não têm previsão de voltar. Tem sido difícil convencer seus avós da necessidade drástica de isolamento social, o que tem feito a mamãe entender que realmente conforme a vida vai passando, fica cada vez mais desafiador mudar padrões e hábitos.

Pela primeira vez estamos experimentando a situação de que não prestar gestos de carinho como beijos e abraços, assim como não visitar as pessoas que mais amamos, pode ser decisivo na proteção e cuidado real de todos. Tem sido drástico, mas necessário.

Estamos em São Paulo, no epicentro da epidemia no Brasil, a mais de 600 Km da família da mamãe no Paraná. Estamos tendo que mudar muitos planos. Vôos foram cancelados, a Páscoa provavelmente não vai ter mais encontro da família, a visita dos nossos queridos no final da gestação também não deve acontecer, afinal, não queremos colocar nossos vovôs, que já estão no grupo de risco, em situação de maior perigo de viagem e acesso ao vírus.

Sabe, meu filho, a sensação de parir em meio a esse caos é incerta. Às vezes o medo surge no coração da mamãe, aí é o momento de respirar e entender que tudo tem um propósito e que de certa forma já temos um contrato de almas para passar juntos pelo que precisar. Não sabemos se você vai nascer bem no pico da curva de alastramento da doença ou se já teremos conseguido controlar o crescimento e as coisas estarão voltando para seus lugares. Mas já fomos orientados a evitar ambientes de exames laboratoriais de rotina e os exercícios físicos, tão importantes para o parto que desejamos com um nascimento amoroso pra você, devem ser feitos em casa mesmo.

Ninguém está sabendo ao certo lidar com o que fazer direito. Estamos aprendendo aos poucos e juntos. Lavamos as mãos a todo momento, usamos muito álcool gel, que já nem tem mais pra comprar. Mas o que estamos entendendo definitivamente, filho, é que de fato precisamos mudar a nossa lógica de vida. O sistema de crescimento da economia a qualquer custo é sensível e pode ser abalado a qualquer momento. O individualismo extremo que vivemos até agora não pode ser sustentado porque aprendemos na marra que estamos todos conectados e dependemos um do outro numa corrente que extrapola fronteiras entre os países, mais ainda num âmbito menor na nossa família, espaço de trabalho e vizinhança.

Estamos tendo que cuidar de nós e do outro para proteger quem amamos. Esta tem sido uma das lições mais importantes!

Quando você tiver acesso a este registro, já deve saber que a mamãe é jornalista e gosta de organizar pensamentos e emoções internas através das palavras. Fiquei pensando também que gostaria de saber o que se passava no nosso país e no mundo quando eu ainda estava na barriga da vovó.

Mas espero, mais do que tudo, meu filho, que um dia você possa ler este texto e se encontrar vivendo num mundo melhor por termos passado juntos por esses desafios, que estão sendo duros, mas que com certeza vieram para nos fazer mais sensíveis, humanos e conscientes de nossa fragilidade, num desequilíbrio enorme para mostrar que nosso caminho não estava de acordo com a natureza perfeita e termos a oportunidade de retomar algumas sabedorias que deixamos para trás.

Tudo vai ficar bem! Deus nunca nos abandona e já sinto a benção da paz!

Te amo!

Mamãe Jo.

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