COM QUANTAS CHORUMELAS SE FAZ UMA GAMELA?

O MUNDO ANDA MUITO CHATO. Chato e sem galochas. Tão chato que uma piada é tida na conta dum discurso de ódio. Não que não existam piadas de mau gosto contadas por cafajestes de quinta. Não. Mas isso, para meus padrões caipirescos, está muito longe de ser um discurso de ódio.

Bem, não é à toa que ultimamente tudo anda tão sem vida e sem graça nessas terras cabralinas onde toda palavra dita – e bem como cada flatulência solta – acaba sendo (in)devidamente patrulhada pelos indiscretos e totalitários olhares politicamente correto.

De mais a mais, se formos utilizar os devidos pesos, junto com as apropriadas medidas, do velho bom senso, poderemos constatar que, o tal discurso de ódio, no frigir dos ovos, nada mais seria do que qualquer coisa que as alminhas do bem considerem odioso pelo simples fato de ser dito e lhes causado, como direi, desgosto.

Mas isso não me impede de rir. Gosto de rir. Rir de tudo. Inclusive e principalmente de mim. Carrego comigo, em meu bolso furado, o conselho luminoso que nos vem do tinteiro de Ariano Suassuna que, dizia-nos, que quem gosta de tristeza é o diabo. Por isso rio, sempre, sem medo de escandalizar os pobres diabos com seu bom-mocismo engajado. Opa. Perdoem-me. Dei uma divagada.

Bem, apesar da chatura reinante, a gente se diverte as pampas, com essa criticidade elevada à enésima potência que toma conta das mentes mui bem pensantes e esclarecidas. Não tem como não rir quando o ridículo é elevado a categoria de bandeira ética e causa política. E, como nos dita o brocardo popular, é sempre melhor rir que chorar.

Mas não é de choro, nem de riso que desejo escrevinhar. O ponto dessa causo é a língua de pau e seus serviçais. Isso mesmo. Ocorreu-me algo que, sinceramente, até o momento não havia pensado. Quem nos chamou a atenção para isso foi o escritor português João Pereira Coutinho que, certa feita, numa de suas escrevinhadas, havia afirmado o mesmo que, nesse momento, estou a escrevinhar, porém e obviamente, com uma elegância, e com um estilo, que nunca irei alcançar. Sim, me bobeei e divaguei de novo.

Carambolas! Não seria possível pensar, imagino eu, a atuação de escritores irônicos, satíricos e sulfurosos como Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Agripino Grieco e tutti quanti nas páginas impressas e digitais dos dias atuais. Páginas essas formatadas de fio a pavio com aquela afetação de bom-mocismo de ocasião que é exigida pelas áureas alminhas que habitam olimpo diplomado e politicamente correto.

Creio, francamente e com certa tristeza, que a existência de figuras assim seria algo pouquíssimo provável. E se habitassem entre nós, bem provavelmente, eles seriam um escândalo só.

Já pararam pra imaginar o que esses homens, de pena e tinteiro cáusticos, escreveriam sobre a sociedade brasileira atual? Como suas letras cítricas e cínicas seriam recebidas e lidas pelos olhos da galerinha do bem? É. Dá até medo de imaginar. Dá nada.

Eu, pessoalmente, às vezes fico a matutar o que Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, se brasileiros e vivos fossem, escreveriam a respeito de nós, e sobre o momento atual, em suas FARPAS mensais. Mas divago. Divaguei mais uma vez, mas agora parei.

A questão que chama minha atenção é o quanto que o policiamento fomentado pelo politicamente correto asfixia a espontaneidade humana. Tudo, para ser dito, deve ser devidamente medido pelo artificialismo desse vocabulário oco de ocasião que arroga tomar o lugar do bom senso e da educação. Bem, e se não podemos dizer isso ou aquilo, consequentemente, acabamos deixando de indagar, de imaginar, de pensar algo sobre aquilo ou isso, degradando a nossa percepção da realidade e a nós mesmos.

Chegamos a tal ponto que, como nos diz o escritor Yuri Vieira (autor dos livros A TRAGICOMÉDIA ACADÊMICA – CONTOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU e A SÁBIA INGENUIDADE DO DR. JOÃO PINTO GRANDE), que hoje, para uma ironia não ser mal entendida, você tem que colocar um emoji ao final da frase.

Ocorre-me agora, sobre isso, uma observação a muito feita pelo escritor mexicano Octavio Paz, onde o mesmo afirmava que a maior de todas as corrupções que existe é a corrupção da linguagem. Se essa, a linguagem, enquanto ferramenta imprescindível para edificarmos pontes entre nós e a realidade é pervertida, acabasse, consequentemente, danando nossa capacidade de ação, de compreensão e de realização.

E é esse papel corruptor que o dito cujo do politicamente correto vem exercendo atualmente, tornando a nossa vida opaca e, nossa percepção dela, não apenas algo sem graça, mas também, sem vida. Principalmente sem a presença da Graça que a tudo alumia.

Chorumelas a parte, é isso que temos para o momento. E fim de causo, porque aquela xícara com café nos aguarda.

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