Contando carneiros

*Wanda Camargo

Mais do que nunca, dada a necessidade de educar para empreendedorismo, criatividade e inovação, já que se prevê para breve o fim do emprego como o conhecemos, e parecer urgente que a nova geração seja mais independente de grandes empresas e mesmo do serviço público como geradores de emprego e salário, é indispensável que características como autonomia e um pensar emancipado sejam cultivados e valorizados em sala de aula.

No entanto, são exatamente estes atributos que afastam os estudantes do comportamento disciplinado, tão valorizado por pais e professores e que, com equilíbrio e em certa medida, é realmente necessário – dilema também de toda autoridade constituída – e que tornam tão mais difícil manejá-los ao bel prazer daqueles responsáveis pelas estruturas formais de poder.

É melhor criar um filho cordato, obediente, cumpridor de regras, ou ter um filho rebelde, brilhante e capaz de transformar o mundo ao seu redor? Sempre desejamos ambos, mas sabemos, no fundo, que são qualidades mutuamente excludentes na maioria esmagadora das vezes, que obediência costuma afastar o arrojo; e este impasse dos pais manifesta-se também nas escolas, e evidentemente nas organizações voltadas ao mundo do trabalho, onde queremos funcionários geniais, porém acatadores de ordens, das mais corretas às mais estapafúrdias.

A charada é aprofundada quando pensamos em educação dentro de instituições prisionais, pois, se de um lado precisamos qualificar detentos para as atividades laborais, até como garantia de que tendo como prover a própria subsistência por meios legais, não voltem a delinquir, e de que conhecendo melhor a história e o patrimônio cultural humano se tornem mais respeitadores da lei e da ordem, por outro teremos exatamente que minorar seu inconformismo com o estado de coisas que os levaram até lá. Afinal, a maior parcela deles não teve acesso ao ensino formal na idade adequada, muito menos a escolas capazes de trabalhar habilmente sua rebeldia, exclusão e ferocidade acumulada.

As estatísticas mostram a população carcerária cada vez mais jovem, majoritariamente constituída por negros, todos com menos estudo e mais violentos. A reincidência é uma brutal realidade, saindo sem qualificação profissional o caminho do crime será mais facilmente trilhado, por velho conhecido, por contatos anteriores, por vício de procedimento, numa comunidade em que não são mais aceitas análises mostrando que sujeitos são levados à criminalidade por suas condições sociais e pobreza. Consideramos cada um responsável pelos seus atos, independente da história de vida, e punições tendem a se concentrar mais na análise do risco de a ofensa vir a se repetir, privilegiando a imposição de sanções sem finalidade de recuperação.

A Educação prisional funciona como um dispositivo que privilegia intervenções sobre o meio para regular condutas, conforme parâmetros do livro Educando para a liberdade publicado pela UNESCO em 2006. A educação aparece ali como condição de recuperação de vidas, investimento no capital humano que permite a cada um inserir-se no sistema produtivo e auferir renda a partir de seu trabalho, o que implica em fazê-los esquecer outras habilidades para assumir aquela que se apresenta como condição necessária para uma outra forma de vida, mesmo que esta vida esteja e permaneça sob reclusão.

Aquele que deveria ser momento de avaliação e de aprendizado, tendo como objetivo sua reinserção, faz desaprender muito do necessário para, ao sair, portar-se com dinamismo, ser capaz de administrar relações sociais e afetivas de forma organizada, agir de forma inovadora e criativa.

Num país que desvia merendas de escolares, as quais muitas vezes constituem-se na melhor (quando não única) refeição do dia de muitas crianças, assim como verbas destinadas às construções de unidades de ensino, e também é incapaz de construir presídios em quantidade indispensável, além de não garantir modo de vida razoável dentro dos existentes, que tem praticado a corrupção em clima de final dos tempos nos mais variados setores da vida pública, as perspectivas não se apresentam promissoras.

*Wanda Camargo é educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

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