DE CORAÇÃO É QUE SE APRENDE

NÃO DIGO QUE AS IDEIAS MOVEM o mundo. Não. Mas creio que não exista dúvida alguma quanto ao fato de que as caiporentas das ideias justificam – cada uma ao seu modo – as nossas ações. Todas elas. Cônscios ou não disso, lá estão elas, as abençoadinhas, com suas sedutoras silhuetas eidéticas. Sempre.

 

Sejam ideias lindas ou feinhas, perfumadas ou fétidas, boas ou diabolicamente boazinhas, lá estão elas de mãos dadas com nossas escolhas para lhes dar aquela forcinha indispensável para podermos nos olhar no espelho e não nos envergonharmos, tanto, de nossos feitos e malfeitos.

 

Sim, muitas das vezes não compreendemos claramente o que aquela frase de efeito, grudada em nossos lábios, e disparada nas ocasiões que julgamos convenientes, querem dizer, mas elas nos são úteis para nos convencermos de que supostamente temos razão.

 

Resumindo: o que nos interessa, em nosso cinismo fundamental, é que as ideias apenas cumpram razoavelmente bem a função de comprovante esfarrapado da suposta legitimidade de nossa atuação nesse vão teatro de sombras que é a sociedade contemporânea. Só isso. E o resto é resto.

 

Um exemplo ilustrativo e providencial desse tipo de oportunismo oco, em meu ver, é aquela frase maledicente, repetida tantas vezes, aqui, ali e acolá, por todos, numa e noutra ocasião, que diz: “a gente não têm que decorar as coisas. Não. Nada de decoreba. Isso é bobagem. O importante mesmo é a gente entender. Isso é o que vale. Isso é o que realmente interessa”. Eita frasezinha maldita.

 

Quando ouço isso, pouco importando de qual direção o trambolho venha, fico pra lá de ressabiado. E te digo a razão da minha precavida maldade. Para tanto, vamos por partes.

 

Primeiro: o que significa, exatamente, decorar? Eis questão lazaretica que esse capiau ousa levantar nesses modernosos tempos digitais que preferem o brilho tosco duma tela de celular, cutucada por dedos desavisados, do que a luz vivificante da memória. Pois te digo: é saber de coração. Cordis. Ou, como se diz, saber de memória e, quando assimilamos algo a ela, estamos integrando esse novo saber em nossa personalidade. Por isso os escolásticos diziam que quanto mais eu sei, mais eu sou.

 

Sim, sei que essa observação é lacônica, mas, a partir dela, pensemos algumas coisinhas. Se, em um dado momento de nossa vida, não tivéssemos aprendido de cor o tal do alfabeto e decorado um punhado de palavras – vocábulos com seus respectivos significados que integram o vernáculo da nossa maltratada língua – e um maço de regras, como poderíamos estar, agora, lendo essa birosca? Será que bastaria entender o alfabeto para sabermos ler e escrever razoavelmente? Não seria engraçado, esquisito mesmo, termos que pesquisar no google cada letra, cada palavra para sabermos como se escreve qualquer coisinha? Aliás, como faríamos isso, uma pesquisa no google, sem um coeficiente mínimo de decoreba?

 

Vejam só como são as coisas. Pare e pense em tudo aquilo que sabemos fazer – desde falar, andar de bicicleta e, inclusive e por que não, montar uma reflexão e participar de uma discussão – e verá que sabemos fazer isso e aquilo porque incorporamos em nossa personalidade uma gama significativa de saberes que, espontaneamente, utilizamos quando os mesmos tornam-se necessários.

 

E, quando não estão sendo utilizados, ficam silentes e latentes em nós.

 

Qualquer um que tenha praticado uma arte marcial, ou saiba tocar um instrumento musical, ou que seja um enxadrista inveterado, sabe muito bem do que estamos falando. Aprender qualquer uma dessas artes é, em princípio, assimilar mecanicamente uma série infindável de movimentos e conceitos que, pela repetição, acabam tornando-se parte de nós, ao ponto de combinarmos eles com tal espontaneidade que, sem querer querendo, acabamos por criar algo que poderíamos chamar de estilo pessoal.

 

Detalhe: não existe esse trem de entender uma arte marcial, o xadrez ou um instrumento musical. Ou você os conhece, confundindo-se e fundindo-se com eles, ou você não sabe nada dos Paranauê. E não adianta fazer beicinho que, na real, é assim mesmo que a banda da vida toca.

 

Parêntese. Lembremos que aprender algo não é sinônimo de sabermos repetir o que os nossos iguais repetem e que, de certa forma, acaba pegando bem e parecendo legal, mas sim e fundamentalmente, aprender qualquer coisa que valha é conhecer algo que, muitas das vezes, não irá interessar aos que estão em nosso em torno. Aliás, repetir o que todos dizem, até onde sei, seria tão somente o tal do chavão, do senso comum, da doxa e tutti quanti. Fecha o parêntese.

 

Se esses exemplos acima expostos não lhe convenceram, me permitam mais um. Obrigado.

 

Vamos supor que pretendemos aprender uma língua estrangeira. Imaginemos que nesse aprendizado não teremos que aprender de cordis, mas somente entender a língua do nosso jeitão crítico. Já pensou que curioso seria? Imagine se, por exemplo, apenas entendêssemos o idioma alemão. Isso iria nos habilitar para termos uma conversa com nativos da Alemanha? Será que o jeito que entendemos a língua deles corresponderá necessariamente a realidade da mesma? Pois é.

 

Quando começamos a matutar sobre essa ideia permissiva que tomou conta da educação brasileira acabamos por compreender porque há décadas estamos amargando resultados, no mínimo, aterradores nos testes internacionais. aterradoras para qualquer pessoa com um mínimo de bom senso. É claro.

 

Não que não possamos construir um entendimento diverso sobre isso ou aquilo. Não é nada disso. Podemos construir o entendimento que quisermos sobre o que bem entendermos desde que, primeiro, tenhamos absorvido e integrado esse algo ao nosso horizonte de consciência. Podemos ter a opinião que quisermos sobre qualquer coisa desde que saibamos o que seja essa tal coisa. Se não tomamos essa premissa como base, o que acabamos tendo em nosso horizonte, no frigir dos ovos, é apenas a assimilação do nosso supervalorizado entendimento sobre algo que, necessariamente, ignoramos; que simplesmente não conhecemos.

 

E tem outra coisa que, agora, me ocorre e, em tempo, registro aqui nessas turvas linhas. Além de promovermos um desperdício descomunal de energias e esforços humanos em ações fadadas a um retumbante fracasso, por estarem fundadas nesse tipo de ideia tosca, nós também acabamos por introjetar outro baita autoengano na gurizada.

 

Nesse sentido, a educação ao invés de tornar-se uma ferramenta para nos arrancar da miudeza de nossa subjetividade, acaba se tornando um instrumento para nos agrilhoar de maneira insana a pequenez a nossa ignorância autocomplacente.

 

Como diria Chesterton, o que diferencia um louco de um sábio é que o segundo amplia sua cabeça para abarcar o mundo; já o primeiro lavora pra reduzir o mundo para que esse caiba em sua caichola.

 

Resumindo: é essa insanidade que está subjacente a essa ideia simplória de que o que importa é entender, e que decorar, que a decoreba, seria uma coisa retrógrada e blábláblá. Ideia essa que, acima de tudo, faz chacota e pouco caso do esforço individual para melhor elogiar a desídia cognitiva daqueles que sorriem por ver que muitos estão ficando encalhados no mesmo nível de mendacidade que eles.

 

Fim de causo. Não preciso nem dizer, não é mesmo? Hora de voltar para o meu café.

 

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