Dor poética: desromantizar a maternidade

Gestar um filho é também quebrar silêncios velados sobre uma maternidade que traz muitos desafios internos e externos. Desromantizar. Texto escrito nas primeiras semanas de gestação.

 

Tenho morrido a cada respiração para o que já fui.

A mente afiada tem naturalmente dado espaço a um estado de esquecimento, de um confortador silêncio que até então nunca foi o preferido na força de ação e resolução de desafios.

As máscaras caindo uma a uma. Suspiro. Entro um pouco mais em direção a TUDO O QUE É.

O corpo antes treinado pelo Yoga e pranayamas, com ciclos de sangue completamente conhecidos, dá espaço para soltar o controle de tudo, para a falta de ar no simples exercício de subir uma escada e precisar de pausa, de respiração, de espaço, para precisar de nada. Somente o agora, sem ação.

O corpo não escuta mais a mente, enquanto ainda tenta resistir. Não há mais espaço pra ela. Não sobrevive.

Respiro e nesse ar vai embora mais uma parte de mim.

Sinto que sou terra molhada, fertilizada em minha própria carne, em meu ventre, uma semente já brotando e, mesmo com poucas semanas, mudando toda a energia ao redor desse solo em que se ancora.

Estou morrendo. Choro com o luto por ver uma mulher que sei que não voltará a ser o que era. E não num espaço de vítima, mas de benção. Estou renascendo.

Estou descobrindo aqui dentro um ser que nunca imaginei que conheceria, uma eu mesma que não sabia que existia, mergulhando num dos portais mais fortes que já vivi.

Sei que ainda são as primeiras camadas de outras muito mais profundas ainda que irei adentrar com esse rompimento literal no meu corpo e em minha alma. Uma passagem.

Que linda transformação. Amorosa terra fofa, amor profundo e invisível que nos conecta.

Estou em movimento no silêncio.

Com amor,

Jo.

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Foto: Dani Leela

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