ENTRE CRENÇAS E CRENDICES FURADAS

 

Todos têm lá suas convicções. Todos. Nem que seja a convicção de que nesse fim de semana iremos tomar todas e mais algumas.

 

Enfim, todos temos princípios, ou algo próximo disso, que nos orientam em nossos passos e, pelo gracejo feito sem muito jeito no início dessa missiva, fica mais que evidente que o “X” da questão não é se somos convictos de algo, mas sim, sabermos se somos nós que possuímos esse troço ou se é ele que nos possui.

 

As crenças e crendices acabam, dum modo geral, gostemos ou não, dando forma ao nosso caráter. Crendices e crenças essas que habitam o nosso imaginário que, por sua deixa, são absorvidas de modo irrefletido por cada um de nós através da programação televisiva, por meio de filmes, seriados, através do sistema educacional, pela leitura de obras literárias, resumindo o entrevero, elas chegam até nós por meio de tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, dialoga com o nosso mundo interior, com nosso mundo simbólico, seja na idade pueril ou na maturidade.

 

Bem, até aí, não há problema algum, pois é assim mesmo que a banda toca. Desde tenra idade vamos naturalmente absorvendo uma gama sem fim de valores, ideias, conceitos e modelos de conduta e, de modo indireto, essas coisinhas passam a integrar o nosso patrimônio íntimo, nos auxiliando na tomada de decisões, em nossas escolhas, sejam elas de grande ou pequeno vulto.

 

O que, ao que me parece, torna-se mui esquisito é o fato de muitos de nós nunca se propor a examinar, serena e seriamente, essas coisas que ocupam o nosso universo interior, coisas essas que foram semeadas em nossa alma sem nosso consentimento e que, mesmo assim, acabamos por chama-las de nossas ideias, nossos valores e, é claro, nossas convicções e opiniões.

 

Com essa observação não estou querendo dizer que devemos fazer aquela chatice de realizar uma reflexão crítica de nossas ideias críticas para ficarmos mais críticos ainda. Não! Deus me livre e guarde duma coisa dessas!

 

Aliás, abramos um breve parêntese: quando utilizamos sem a menor cerimônia a palavra crítico para qualificar tudo o que fazemos e, principalmente, para justificar tudo o que deixamos de fazer, estamos caindo no mais vil auto-engano que pode existir. E, assim o é, porque a partir do momento que afirmamos que somos críticos e que tudo o que iremos fazer também o é, o que estamos querendo dizer, no fundo, é que nós estamos acima do bem e do mal, de qualquer julgamento, que não somos tongos como os demais mortais alienados que estão a peregrinar por esse vale de lágrimas. Enfim, quando nos declararmos críticos, imaginamos ser pessoinhas especiais, mui especiais, ao mesmo tempo em que nos fechamos, de modo similar ao Smeagol, na mais abjeta alienação. Fecha parêntese.

 

Voltemos então para a encrenca. A questão não é sabermos, num primeiro momento, se os valores e ideias que dizemos serem nossos, são bons ou ruins. Esse já seria outro estágio. O que sugerimos é que procuremos saber se isso que dizemos ser tão nosso, de fato, o é.

 

Para tanto, indicamos um exercício bem simples, mas que, como tudo o que é simples, para ser eficaz, deve ser feito com uma profunda sinceridade.

 

É assim: primeiro pense em alguma ideia ou valor que você considera ser seu, todo seu, somente seu. Sei lá, pense naquilo que você pensa a respeito do aborto, ideologia de gênero, comunismo, neoliberalismo, Lula, Bolsonaro, ou qualquer outra coisa desse naipe.

 

Pensou? Muito bem. Bom garoto. Agora se pergunte o seguinte: (i) esse trambolho que dizemos ser nosso, todinho nosso, quando o adquirimos? (ii) Através do que, ou de quem, nós tivemos acesso a essa ideia ou opinião? (iii) Como, de que maneira esse trem chegou até nossos miolos?

 

Pois é meu caro Barnabé! Quando mais complexa e ramificada for a resposta, quanto maior for o número de referências que apresentarmos a nós mesmos para indicar donde veio isso que chamamos de nosso, mais, de fato, isso nos pertence porque nós realmente sabemos o que é, de onde veio e como chegou até nós. Simples assim.

 

Agora, repito, agora, quanto mais superficial for a nossa resposta a essas simplórias perguntinhas, menos isso nos pertence, mesmo que insistamos, batendo o pezinho, dizendo o contrário, pelo simples fato de que não sabemos claramente do que estamos falando, nem de onde isso veio e como isso acabou chegando até nossa moringa.

 

Sim, eu sei que iremos dizer que pensamos essa ou aquela coisa “genial” com nossa própria cumbuca e por conta própria, mas, o que é incrível nessas mentes demiúrgicas e autossuficientes é que esse trem supostamente pensado em primeira mão por elas é, em regra, igualzinho a tudo o que é dito e pensado por todo mundo e, inclusive, que é repetido e martelado sem parar pela famigerada grande mídia.

 

Pois é, pois é, pois é. Eis aí toda a vacuidade daquilo que chamam aqui e acolá de criticidade. Apenas um conjunto de palavras vazias, de crenças e crendices furibundas, bravejadas por almas ocas imersas em multidões que imaginam que sua frivolidade seja alguma espécie de distinção ética ou algo próximo disso.

 

Fim. Hora do café.

 

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