Requiém para Notre Dame

Sonia Giorno em Paris (Foto: Acervo pessoal)

As aulas de história, no ensino médio, compensavam toda a falta de interesse, o tédio e a monotonia que as demais matérias traziam.

O  mérito era da professora, que literalmente  viajava pelas civilizações antigas, povos estranhos, culturas fascinantes. Em meio às narrativas de reis, sultões e faraós,  minha imaginação adolescente se perdia num misto de fascínio, curiosidade e frustração, por ver o quanto  inacessível seriam alcançar aqueles mundos, impossíveis para a minha realidade.

A leitura também foi um tapete voador que transportava às mais deliciosas sensações e descobertas, o que tornava para mim um mundo possível de se chegar. Entre tantos, fui levada por Vitor Hugo a conhecer a Paris medieval, e a sombria história de um amor impossível entre um ser humano deformado pela feiúra e pela doença, em contraste com uma cigana plena de vida e de beleza.

No cenário da minha imaginação, num misto de fascínio e de medo, eu percorria as escadarias estreitas e úmidas, nas sombras de uma secular catedral. Em meio  a esta atmosfera cinza, o  que trazia uma centelha de vida era a festividade do som de um sino, tocado diligentemente pelo corcunda de Notre Dame.

Já adulta, meu interesse por história foi se acentuando cada vez mais, e pude então, dentro de possibilidades  restritas começar a descobrir lugares que traziam relatos de povos antigos, culturas e costumes. Mas chegar ao Velho mundo só consegui na idade madura. Fazia parte das milhares  de pessoas que também ansiavam um dia conhecer Paris.

Enfim estava ali. E a História se descortinava bem à minha frente.

Na primeira manhã que saímos e pisamos em suas ruas, comecei a me dar conta de onde estava.A estação era outono, a minha mais amada estação do ano, e tinha a companhia de minha irmã. Em menos de cem metros nos vimos diante do Rio Sena, com suas pontes, as águas escuras e silenciosas percorrendo toda a extensão de Paris. Para o momento se tornar mais perfeito, estava garoando, como teria que ser.

Ainda vacilantes quanto ao itinerário, uma coisa tinha certeza, a primeira coisa a ser vista seria ela, Notre Dame. Nos deixamos levar, maravilhadas, margeando o Sena, pelas ruas cobertas de folhas vermelhas, amarelas e marrons, devagarinho, em silêncio, sentindo todos os cheiros e ouvindo todos os sons do caminho que nos levaria a Ile de la Cité, como se fosse o coração de Paris, onde ela estava guardada.

Nossa primeira visão  foi pela rua lateral que chegamos, então, ela estava ali, em toda a sua extensão. A manhã era fria, cinza e úmida, e eu paralisei boquiaberta diante da suntuosidade da sua construção. Os seus detalhes, a arquitetura gótica, as esculturas, os gárgulas.Nunca  tivera o desejo de conhece-la por motivos místicos, espirituais ou religiosos. Mas simplesmente por ela. Porque se mantinha ali, impassível, vendo os séculos passarem, o tempo das gerações findarem, os reinados serem estabelecidos e serem extinguidos, ideais e paixões se descortinarem em seu interior.

Fiquei ali, parada, debaixo da chuva fina, tentando reter  para sempre em minha memória o que estava vivendo e sentindo.

De volta à realidade, comprei uma sombrinha vermelha na banca dos inúmeros orientais que vendem de tudo, e nos engajamos na fila que nos levaria até as magnificas torres. Não importava o tempo que iria levar, eu queria vê-la por completo, saber o que estava nas suas entranhas, nos lugares mais secretos.

A escadaria de 410 degraus era muito mais íngreme do que a da minha imaginação, estreita e em círculos. Já no alto, a visão da passarela que une as duas torres é magnifica,  Paris se descortina majestosa a partir de seu coração.

Mas eu ainda queria mais. Haviam áreas restritas, não aberta á visitação, mas, num ato de rebeldia adolescente, entramos numa fenda das madeiras, que levava para dentro  da sua torre direita. Ali estava ele, Emanoel, colossal nas suas treze toneladas de  bronze, mas ao mesmo tempo, eu imaginava  que quando ele era tocado, seu som era doce e comovente.Agora ele permanecia quase todo o tempo em silencio, só poderia ser tocado em ocasiões mais epeciais do planeta, como a morte de reis, consagração e papas, coisas muito significativas, afinal, ele era raro demais para apenas lembrar as horas. Estava ali, guardado nas vísceras da torre direita (se olhar de frente), sustentado por vigas gigantescas, e estas, eram um outro espetáculo de se ver. As  marcas dos séculos estavam nestas madeiras que sustentavam o teto da torre e toda a sua estrutura. Corcomidas, desgastadas, seguiam inabaláveis.

Por instantes voltei às paginas do romance, e quase pude ver Quasímodo na sua árdua tarefa de  tanger aquele gigante, fazendo sair dele o som que orientava as pessoas, que enchia de melodia a velha catedral. Fechei os olhos e absorvi aquele momento.

Saímos furtivamente, antes que fossemos penalizadas pelos seguranças. Mas ficou guardado como um tesouro este momento, nem todos conseguem chegar até estes recantos secretos, não podem imaginar o que se esconde ali. Pela mesma escadaria descemos, num acesso que nos levava diretamente ao interior da catedral. Percorri vagarosamente o seu interior, emudeci diante de seus vitrais, e tentei ver  e reter o máximo que consegui. Terminado o circuito, saímos pela  colossal porta da frente, podendo admirar toda a sua beleza, como num cartão postal.

Três anos depois voltei a Paris. Era fim de março, começo de abril, e a primavera estava começando. Os dias eram lindos, azuis , a temperatura amena, e  em todos os parques havia uma penugem verde nas árvores, e uma explosão de flores. Como um presente, teria muitos dias em Paris visitando minha filha.

E voltei a ela, a antiga catedral. Desta vez, como quem já tem  mais intimidade, fui andando devagar, olhando com cuidado cada parte. Vários dias eu voltaria a ela, ás vezes só para  sentar nos bancos da praça que há em sua volta, debaixo as árvores de flores cor de rosa. Ou ver o final da tarde, olhando para o rio Sena, e escutar o toque do sino marcando 18 horas. Sabia que não era o som de Emanoel, mas mesmo assim era uma sinfonia para meus ouvidos. E entrei várias vezes. Ao entrar por sua enorme porta da frente, se abre uma pequena porta lateral que leva ao interior, e aí sim, ao colocar meus pés dentro do átrio, a primeira coisa que me alcançava era o cheiro…. de coisas antigas, guardadas. E eu andava devagarinho, vendo cada escultura vitrais, a imensidão de suas abóbadas, sua estrutura perfeita. Uma reverência era acionada instantaneamente, reverência pela arte, pelo tempo, pela nossa insignificância diante do tempo, que é eterno.

E por fim, passados alguns meses, voltei para passar o Natal com minha filha. Era inverno, e Paris fervia de visitantes, vestida de luzes para as festividades, belíssima e irresistível. Ante véspera de Natal, com minha filha passamos por Notre Dame á noite, uma visão diferente, cena de cartão postal.

Faltando três dias para o Ano novo, como um presente, consegui o ingresso para um recital de música medieval e canto gregoriano, a ser apresentado nos átrios de Notre Dame, onde se poderia vivenciar o poder de sua acústica.

A noite era gelada, e eu me vesti de festa, com o que tinha de mais bonito envolta pelo meu melhor perfume, para esta que seria uma ocasião única de poder viver  este momento. Foram duas horas do mais puro enlevo, de sentir a alma ser esticada como as cordas de um violino, sem ouvir o mínimo ruído, até a respiração era contida, e somente o canto cristalino e os instrumentos. E ela, a majestosa catedral devolvia aos nossos ouvidos uma melodia, que sim,era algo celestial. Para mim foi o coroamento de tudo o que poderia ter de Notre Dame. Saí dali com a convicção clara de ter vivido a  essência daquele lugar, de toda a minha imaginação e que certamente estava completo.

Voltei algumas tardes para me despedir dos vitrais e ver um pouco mais a decoração natalina que adornava seu interior. Porque gostava de ficar as tardes ali, pois sem pre havia alguma coisa que eu não havia percebido, ou ás vezes, por uma dádiva, o órgão poderia começar a ser tocado, já que era época de Natal e fim de ano. Poderia. Ela sempre poderia me surpreender. Algumas vezes ainda me sentei nos bancos dos jardins da praça, agora as árvores estavam secas,e o vento era gelado. Ainda escutei o sino, porém as 18 horas já se fazia noite e muito frio.

E neste mês de abril, quando lá está começando a primavera, o mundo assiste ainda sem acreditar, as chamas enormes subindo da velha catedral. Quando sua torre agulha começou a ruir, o sentimento era de que nada se salvaria. Um misto do irreparável, uma tristeza de não conseguir fazer nada para evitar, vendo algo tão precioso se perder para sempre. Milhares de recursos foram levantados imediatamente, o mundo se mobilizou, e foi um alívio em saber, que nem tudo foi alcançado pelas chamas, e que, com todos os avanços da tecnologia de um mundo moderno, e a habilidade dos maiores restauradores, materiais serão criados tão semelhantes quanto aos originais, talvez até melhores e mais perfeitos. E ela ressurgirá mais impecável  e lindo do que talvez já era.

Mas para mim… talvez eu tenha mais anos de vida que poderiam me permitir visita-la restaurada, com nova roupagem. Mas uma coisa é certa. Nunca voltarei a entrar.

Eu não poderia. Quando eu entrasse por sua porta, jamais aquele cheiro me  alcançaria.Terá se perdido em meio a tintas e soluções e tantos outros produtos que serão usados, e inevitavelmente, será o cheiro do novo, do recriado. A sua essência, a sua intimidade terá sido pisada por centenas de trabalhadores, engenheiros, restauradores, seu silêncio será maculado. O sentimento de reverência por algo que ultrapassou os séculos terá sido violado.

A Notre Dame das minhas memórias permanecerá intacta, com todas as sensações  que vivi e experimentei. Para esta nova, que ressurgirá dos escombros, vai começar um novo ciclo, daqueles que irão conhece-la em sua nova roupagem.

Gerações virão e irão admira-la e se encantarão com.

Eu, lamentavelmente, não farei parte destes.

Não conseguiria, mesmo que o tempo viesse a me permitir. A minha alegria é saber que pude sentir a essência do que foi Notre Dame.

E isto não é obra de restauradores, nem o resultado de milhares de euros investidos.

São coisas únicas, pessoais e intransferíveis!

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