Há muita estupidez no ar

Vivemos tempos estranhos. Não há mais a faculdade de escolher entre isto ou aquilo, ou você se submete ao status da imbecilidade e da estupidez de um discurso único que virou refém da indústria do entretenimento  que virou moda em nosso país  ou o que nos resta é o exílio para uma sagrada subjetividade que ainda pode dar crédito à nossa consciência individual.  Mesmo sabendo que é muito difícil ignorar o mundo virtual e a confusão das fakes news, negar estes dispositivos passa a ser a única forma de pensar livremente sem ingerências.  Pouca coisa restou ao homem contemporâneo neste ambiente de alta destrutividade sendo o exílio subjetivo, a ironia, a imaginação criativa e o humor como atributos para uma razoável vivência, próximo da sobrevivência.

Cuidar de nossa subjetividade individual parece ser a única saída na medida em que nossa subjetividade nacional coletiva continua parecendo ser o que de fato não é, ou seja, mascarada. Parafraseando o psicanalista Contardo Calligaris,  em nosso país, sabe-se, vive-se de máscaras onde na verdade pode-se fazer ‘o que quiser’ tanto na vida pública [principalmente] quanto na vida privada. Alguns se justificam, outros nem se dão a este trabalho. Farsa e fraude sempre prevaleceram nestas terras tupiniquins. Discurso e prática sempre mantiveram o divórcio. Assim  tivemos ‘Independência’ que nunca existiu, ‘República’ que nunca foi República, modernidade que sempre foi conservadora e agora, principalmente na vida pública, mas ainda muito forte na vida privada, mudança que não é mudança. Acabar com criminalidade armando a população com critérios duvidosos parece ser a primeira resposta errada à pergunta certa ‘o que fazer diante do caos?’. É óbvio que algo precisa ser feito, mas não às pressas e não sem discussão profunda para que o tiro não saia pela culatra. Parece que é vontade geral da nação e dos brasileiros resolver os problemas do país, sobretudo onde o calo aperta para cada um, mas escolher o ataque ao fantasma ideológico como calcanhar de Aquiles garimpando bruxos e bruxas nas escolas e universidades públicas parece ser um erro mais que primário. A heterogeneidade não pode ser engolida pela homogeneidade. É até compreensível a vontade popular de moralizar os costumes em tempos tão liberais e exóticos, mas daí a ter que digerir vômitos de uma ministra religiosamente fanática e mentecapta é uma agressão à civilidade cosmopolita. Passado alguns meses após o resultado eleitoral em todo o país, o que se vê é um saldo em que as características para ser eleito são quase o inverso das características para se liderar uma nação e um Estado. Não está errado afirmar que para ser eleito hoje em nosso país, sobretudo nos cargos parlamentares é imprescindível estar com dinheiro abundante ou gozar do privilégio de estar na indústria do entretenimento e da mídia popular. Com raríssimas exceções, são os ricos e os divertidos aqueles que asseguram uma eleição efetiva.  Os primeiros respondem a interesses mercantilistas, os outros nos fazem passar vergonha. Competência e interesse público não estão aí.

Encontramos mais jovens acessando programas satíricos e youtubers escandalosamente famosos que documentários ou programas esclarecedores. Trata-se do elogio à infantilização. Para fazer frente a isto não nos resta muita coisa a não ser a imaginação criativa e a busca por um estilo de vida que não endeuse o fenômeno do glamour e da ostentação.

É neste ambiente que estamos vendo a educação ir para o ralo. Se ela [a educação] e os educadores não resistirem às tentativas de reduzir o ensino a uma ferramenta do Produto Interno Bruto, estaremos completamente perdidos.

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