‘Hay’ bicho-papão e boi-de-cara-preta

(Imagem/Pixabay)

A noite está com céu escuro. A lua crescente brinca de esconde-esconde desafiando as nuvens, ora negras, ora mais claras, num céu de breu, porém, alguns momentos, salpicado de estrelas.

É a terceira noite de 2020. Um ano que começou com pedidos de saúde, prosperidade, paz. Muita paz! Tenho certeza de que esses foram os desejos mais almejados na momento da ‘virada’. Tipo assim, entre abraços e  estourar de champanhe. Tenha sido ela, a mais popular cidra até o mais sofisticado espumante.

De repente, como num estalo, olhando pela janela do tempo me vi na minha infância. Na casa onde morava ali no Jardim Pinheirinho, numa casa antiga da minha bisavó a quem chamávamos de ‘abuelita’, dada a sua origem paraguaia, havia um pé de caqui. É debaixo dessa árvore frondosa que meu pai fez um balanço. Aqueles com pneu. Era ali que eu embalava os meus sonhos, imaginando o que seria nos anos pela frente. Entre um fruto e outro, colhidos no pé. Como eram frescos aqueles dias. Como eram frescos os meus desejos. Como eram bons aqueles dias ao lado dos meus irmãos, da minha mãe, do meu pai, da minha avó Aurora, da minha ‘abuelita’ Felipa.

Como era bom deitar na grama e junto com meu pai ficar olhando o céu e procurando formas nas nuvens brancas sobre um céu azul. Pular amarelinha, decorar cantigas de roda, as quais já não lembro mais da letras e das melodias.

Como era bom olhar a noite escura, bordada de estrelas cintilantes e deixar se perder num pisca-pisca sem fim. Buscar uma estrela cadente para fazer pedidos e ficar imaginando onde ela cairia. Ter vontade de sair correndo em busca dessa estrela, colocá-la num pote e ver o seu brilho todos os dias, todas as noite.

Ah! Essa ingenuidade de criança que ficava imaginando as coisas sem ter o mínimo conhecimento.  Eu só queria ver duendes verdes, voar num tapete mágico pela imensidão do espaço e me deparar com o infinito, com medo de não poder ultrapassá-lo. Ou brincar de tobogã num arco-íris gigante até encontrar um pote de ouro.

Era um tempo onde eu só queria ser feliz.  Um desejo que persigo que até hoje e que posso dizer que tenho muitos momentos de extrema felicidade. Agradeço por isso e por tudo mais.

Mas de repente, a lua surge majestosa, como num piscar de olhos, rasgando as nuvens desta noite escura, como se chamasse ao presente. Volto à realidade, nua e crua. E vejo que entre as minhas fantasias existem, sim, bicho-papão e boi- de- cara preta.

 

 

 

 

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