Livros para que te quero!

“A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça,

a quase totalidade, não sente esta sede”.

Carlos Drummond de Andrade

 

Para Margarida…

 

Ultimamente tenho conversado muito sobre literatura com um novo colega de trabalho (para quem conhece: o Lima). Mesmo porque temos muitos autores prediletos em comum. E, justamente por causa destes colóquios literários, percebi que tenho lido muito pouco ultimamente. Meu livro de cabeceira hoje é uma edição especial de Os Miseráveis, do escritor Victor Hugo, que devido à falta de tempo, séries da Netflix, cansaço, compromissos sociais, ou seja, todas estas desculpas esfarrapadas que inventamos no dia a dia, o livro fica fechado. Por isso mesmo, talvez, eu esteja escrevendo este artigo egoisticamente para mim mesmo, no intuito de reacender minha vontade de ler, nem que seja algumas páginas, todos os dias. Mesmo porque, mudando um pouco uma frase famosa do escritor Richard Bach, a gente ensina melhor aquilo que precisa aprender e, quem sabe compartilhando com meus leitores, os convença a ler mais também.

No dia 23 abril é comemorado, mundialmente, o Dia do Livro e me parece pertinente, mais que nunca, falar sobre o hábito da leitura. Uma coisa é fato: o gosto pela leitura surge na infância ou na adolescência, aliás como a maioria dos bons hábitos e é muito difícil para um adulto aderir a essa prática se passou uma vida sem ler.

Para estarmos todos em sintonia declaro aqui que quando falo leitura estou me referindo a LIVROS, aqueles de papel. Por mais que a tecnologia apresente novas formas de ler, a experiência táctil de passar folha a folha com os dedos é insuperável. Compreendo que com o advento dos smart phones a maioria de nós lê o tempo todo, principalmente pequenas mensagens de textos trocadas por aplicativos, que nem sempre respeitam a ortografia, a gramática ou mesmo o vernáculo da nossa Língua e, por causa disto, muitas vezes desaprendemos como escrever corretamente.

Neste ponto da coluna completamos o que chamamos de uma lauda, ou seja, uma página e a maioria de nós já pensa: este texto está longo de mais, não tenho tempo para isso. Seja paciente e vamos em frente pois, o grande problema é que nós brasileiros não temos o hábito da leitura ou lemos pouquíssimo. Para que tenhamos uma base do que é ler bastante ou pouco lanço mão de dados estatísticos que dizem que o brasileiro lê 1,3 livros por ano (livros estes não solicitados pela escola) ao passo que no mesmo período os franceses leem sete livros. Na atual conjuntura, caso não tomemos medidas de incentivo, levaremos, pasmem, 260 anos para igualar o nível de leitura dos alunos de países desenvolvidos. Isto é o que afirma uma pesquisa do Banco Mundial lançada recentemente. E quanto menos o aluno lê, mais aprofunda a crise na aprendizagem, assunto que já foquei em um artigo anterior. Se você lê mais, melhor você pensa, mais aprende e melhor escreve. Quer um exemplo? No último teste do ENEM, dos mais de 4 milhões de estudantes somente 55 obtiveram a nota máxima na redação. O que estes alunos têm em comum? O hábito da leitura. Simples assim.

Ratificando o que afirmei acima, o primeiro livro que lembro de haver lido, aos 10 ou 11 anos, foi o romance policial Assassinato no Expresso do Oriente, da Agatha Christie, o que me fez ler em seguida toda a coleção da escritora. E afirmo, ainda, que só li porque fui influenciado, não por ordens ou conselhos, mas, pelo exemplo, já que sempre eu via minha mãe com um livro nas mãos, costume este que até hoje, aos 83 anos ela mantém. É bem provável que sua lucidez nesta idade se deva à leitura constante. Para sorte minha tive um professor de Português no meu nível fundamental que dava 0,5 ponto na média por cada livro lido e resenhado. Daí eu deslanchei a ler todos os livros da então famosa coleção Vaga-lume que podia durante o mês. Eram livros para o público jovem, de leitura fácil tais como: O Rapto do Menino de Ouro, O Mistério do Cinco Estrelas, O Escaravelho do Diabo, etc. Quem tem mais de 45 anos deve lembrar. Com isso garantia minha média no bimestre, já que, confesso, não era muito afeito a realizar os deveres de casa. Enquanto cursava o ensino médio (naquela época chamado de científico) comecei a ler os clássicos. E aqui vai a melhor dica que eu posso dar para quem gosta de ler, ou vai adquirir este hábito, que é ler os clássicos. Isto porque, segundo o filósofo Bacon, “Há livros de que apenas é preciso provar, outros que têm de se devorar, outros, enfim, mas são poucos, que se tornam indispensáveis, por assim dizer, mastigar e digerir”. Livros como Crime e Castigo, Dom Quixote de La Mancha, Moby Dick, Dom Casmurro, A Metamorfose, O Pequeno Príncipe, Vida e Morte Severina dentre outros são excelentes exemplos. Para convencê-los a ler os clássicos podia ainda citar Descartes que dizia “A leitura de todos os bons livros é uma conversação com as mais honestas pessoas dos séculos passados. Mas não! Então porque ler os Clássicos? Fico com a resposta de uma antiga professora do Lima que respondia a essa pergunta da seguinte forma: “Porque são clássicos!”

Já adulto descobri o Gabriel Garcia Marquez lendo Cem Anos de Solidão (que reli 5 ou 6 vezes) e consumi toda sua obra o mais rápido que pude. Ainda hoje é o meu escritor favorito. Dele passei para o Saramago que ainda me faltam dois livros para ler. Daí passei um bom tempo lendo livros para faculdade (filosofia) e pós-graduações quando, de repente, percebi que não estava lendo nada!

Guarapuava possui 4 boas opções para adquirir livros. A livraria Regina, na Saldanha Marinho, a Livraria A Página, a mais completa da cidade, localizada no Shopping Cidade dos Lagos e O Gato Preto, na Azevedo Portugal, a livraria mais eclética. Agora, se você não se importa com livros de segunda mão a opção é o Sebo Akadêmico, na Capitão Rocha. Sempre que Dona Margarida vem me visitar tenho que levá-la para escolher alguns títulos. Não posso deixar de falar que existe a Biblioteca Municipal, na Casa da Cultura, que oferece mais de 20.000 obras para empréstimo.

Então aqui estamos, os que perseveraram e leram até aqui. Para mim está funcionando bem. Ontem tirei o pó de meu Os Miseráveis e passei um bom tempo lendo.

Agora, respondendo ao título deste artigo, Livros para que te quero? Digo que quero para mudar as coisas, para nos afastar da ignorância e desta forma termino com uma frase do Mário Quintana que diz:

“Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas.
Os livros só mudam as pessoas”

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