Nem que as calças caiam

Um dos escritos machadianos que eu mais gosto é “Teoria do Medalhão”. Pro meu gosto, um perfeito retrato da alma daquela porção de nossa sociedade que se considera importante, chique e, é claro, inteligente. Mui inteligente. Não necessariamente nessa ordem, mas fundamentalmente com esse sentido.

 

Entra ano, sai ano, lá estão os medalhões, os caiporas que, com sua pose indefectível de gente que se distingui do restante da população por considerar-se, como eles mesmos dizem de si, pessoas críticas e socialmente responsáveis. Nossa! Como isso é fofo.

 

Se o Bruxo no Cosme Velho vivesse entre nós, bem provavelmente o escrito citado iria detalhar de maneira mordaz esse tipo distinto de cidadão que, de modo similar aos medalhões do século XIX, vive citando autores que nunca leu, e se leu, pouco ou nada entendeu. Pois é, mas, como cai bem citá-los em determinados círculos, eles sentam a ripa citando-os ou, ao menos mencionando seus nomes pomposos.

 

Os medalhões pós-modernos amam posar como defensores de determinadas bandeiras porque, como dizem, pega muito bem apresentar-se com essa imagem tão bonitinha quanto ordinária.

 

Doravante, os medalhões – os de ontem como os de hoje – tem um código de aceitação tribal que deve ser devidamente assimilado, exibido e, ao menos, superficialmente vivido. Aliás, hoje, muito mais do que no tempo de Machado, imagem é tudo. Tudinho. Imagem essa que é compartilhada pelos membros da tribo por meio desse código que lhes permite reconhecerem-se como as pessoinhas mais lindas desse mundo [só que não].

 

Na verdade, de qualquer mundo. Sacumé, a modéstia não é o forte dessa gente. Eles até tentam, mas não rola.

 

Detalhe importante: esses códigos de mútuo reconhecimento e aceitação são frequentemente palavras e gestos carregados dum fortíssimo apelo emotivo que permite a mútua identificação entre os membros da patota. Basta evocar as ditas cujas que a turminha inteira se reconhece e, dependendo do contexto, rapidamente ensandece, ficando revoltz nos duzentos e vinte.

 

Outro trem que também é típico dessa gente oca é aquela velha mania, que vem de longe, de querer parecer próximo, e até mesmo íntimo, de figurinhas importantes. Não tem coisa mais cafona na face da terra. Sei disso. Mas os medalhões – sejam eles de ontem, ou de hoje – adoram essas cafonices.

 

Amam postar, em sua timeline, fotos com uma e outra “otoridade”, como se fossem velhos miguxos; fazem questão de referir-se aos poderosos com apelidos carinhosos para dar aquela impressão de familiaridade com o figurão; fazem questão de mostrar que, além de serem pessoinhas politicamente corretas, também são pecinhas influentes junto aos donos do poder.

 

E, é claro, tais criaturas não se flagram do tamanho do papelão encenado, por duas razões: a primeira, porque tais demonstrações de exibicionismo fazem parte de seu universo tribal, onde a autoimagem é indispensável para o sujeito não cair naquele total desespero frente a sua vacuidade existencial. Segundo, e não menos importante, quando se vive em um cercadinho tribal, dificilmente consegue-se ver para além desse ridículo fundamental de suas cercanias umbilicais.

 

E, se não temos outro ponto de comparação que não seja essa irremediável e ridícula condição, o papelão acaba ficando imperceptível por se tornar, praticamente, a segunda pele do infeliz.

 

Enfim, todas as vezes que rememoro algumas das linhas dessa obra de Machado de Assis, olho para as cenas do mundo em que vivemos e dou boas gargalhadas. Rio, e muito, da forma estúpida que, muitíssimas vezes, nos portamos e, ao mesmo tempo, sorrio, frente à genialidade desse gigante que, pela ignorância presunçosa reinante dos medalhões de hoje, e de sempre, acaba sendo ignorado.

 

Fim. Passar bem. É hora dum bom café.

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