Nos tempos da caverna

Por Luiz Fernando Esteche*

O Paraná vive um retrocesso histórico em relação à democratização do acesso à terra. Pequenos agricultores, índios, quilombolas e caipiras estão sendo expulsos do campo pelas milícias do latifúndio protegidas pela polícia do estado.

Agora são os indígenas que não podem entrar em suas áreas. Na semana passada foram os pequenos agricultores da comunidade de Alecrim, no município de Pinhão, na região Central do estado, que foram expulsos de suas casas e tiveram seus pertences pessoais e instrumentos de trabalho destruídos, assim como seu patrimônio coletivo, como a igreja e a escola.

O caso de Pinhão ilustra bem a influência exercida pelos grandes fazendeiros sobre a Justiça. Ali, uma empresa de exploração de madeira, responsável pelo desmatamento da maior reserva natural do sul
do Brasil, fez de Pinhão, município de uma vasta extensão territorial, sua área de domínio.

Em Pinhão as denúncias de grilagem, assassinatos de posseiros e camponeses remontam aos anos sessenta. Mesmo com sua falência decretada devido à imensa dívida com a União, estado e município, as
Indústrias Zattar continuam com forte influência sobre o Estado, em especial sobre o Judiciário, tanto que obteve a seu favor autorização do Superior Tribunal de Justiça para a reintegração de posse da área
ocupada há três décadas por colonos que construíram no local uma comunidade harmoniosa, honesta e trabalhadora.

As cenas das máquinas destruindo as casas, a igreja e os paiós onde os agricultores estocavam suas produçōes, são chocantes. Parecem que foram feitas há alguns séculos atrás. Em Pinhão ainda persistem
trabalhadores sobrevivendo em condições análogas ao trabalho escravo. Isso em pleno século 21, onde o estado dispōe de todos os meios de informação e controle para apurar e coibir estas atrocidades.

Mas, não. Enquanto o estado for conivente com grupos que agem como os assaltantes do velho Oeste norte-americano, aqui conhecidos como grileiros, com forte influência sobre os poderes da república, continuaremos a assistir esse tipo de covardia contra populações indefesas, cujo crime maior foi ocupar um pedaço de chão para produzir e alimentar os seus e os outros.

Indignação é pouco. Tem que prevalecer o espírito de revolta para impedir que a barbárie e todas suas consequências avancem sobre nossas cabeças.

Não se iludam. Não são somente os índios, colonos e quilombolas que estão sendo expulsos de suas reservas e espaços comunitários. Todos nós que acreditamos viver numa sociedade moderna de alto teor tecnológico, que nos permite o acesso a mais conforto e facilidades, somos vítimas desse modelo de sociedade escravocrata e patrimonialista.

*Jornalista e assessor parlamentar

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