O bullying cabe na arte?

Léo Lins e o humor depreciativo (Foto: Divulgação)

Dizem que rir é o melhor remédio. Porém, a liberdade de fazer piada não torna o comediante imune a críticas. Ainda mais quando os textos são considerados vazios, de mau gosto. Que o diga o comediante carioca Leonardo Borges Lins, o Léo Lins, como seu show ‘Bullying Arte’. O stand up está em cartaz desde 2016. Polêmico, atrevido, o humorista que tem passagens pelo programa ancorado por Marcos Mion, Legendários, ou ainda pela novela Malhação, Programa do Jô, Domingão dos Faustão, Pânico, a Praça é Nossa, e pelo talk-show de Danilo Gentili, é um colecionador de críticas negativas.

Até foi barrado no Japão onde teve o visto cancelado. E sabem por que? Porque ele fez das tragédias do terremoto e do tsunami, a pauta para as suas piadas. Aliás, essa é a linha que Léo Lins adota para chamar a atenção do público e atraí-lo para o seu show. Mexe com a vida de pessoas, de autoridades, fala sobre figuras pitorescas da cidade. Ofende, critica, mexe no brio das pessoas. Porém, fala o que muitos gostariam de falar. Não mente. Mas incomoda, excede. Não é à toa que mais de 20 cidades cancelaram o seu show.

Esse não foi o caso de Guarapuava, mas parte da sociedade reagiu nas redes sociais repudiando a maneira como o humorista ‘desrespeitou’ a cidade e sua gente.

Para a diretora de teatro Rita Felchak, o vídeo de divulgação do show de Léo Lins a deixou com “muita raiva”. Ela disse que analisou o vídeo como artista e como cidadã. “Como artista sempre tive uma opinião dura quanto aos shows de stand up que usam o humor apelativo para ganhar dinheiro, lotar teatros, seja com palavrões, ou zoação com situações constrangedoras de pessoas famosas ou não”. Para Rita, isso não é arte nem entretenimento. “Como cidadã guarapuavana posso dizer que senti muita raiva. Pensar que uma pessoa faz piada da desgraça de outros, expondo suas dores, suas particularidades. Humor que desmerece nossa cidade, nossa história”.

Assim como Rita Felchak, outros artistas que preferiram não ser identificados porque atuam com shows de stand up, também criticaram o mau humor do artista. “Somos bairristas, sim. Boicotamos o preconceito, o bullying e qualquer outra situação de desamor”.

Apesar de vários protestos nas redes sociais, de pronunciamentos na Câmara, de críticas ao Departamento de Cultura por ter alugado o teatro, o fato é que Léo Lins apenas colheu subsídios do próprio guarapuavano. Ele traduziu o que parte do povo pensa, os fatos que aconteceram e que, de alguma maneira, incomodam. Portanto, ele foi pautado pelo próprio guarapuavano.

Afinal, o humor ácido, corrosivo, em detrimentos de piadas inteligentes, é a escola de Léo Lins. Quem não se lembra das piadas de Rafinha, do CQC,  que chocou a sociedade, quando falou sobre mulheres estupradas. No seu show de stand-up dele disparou:  “toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia… Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço”.

Mais uma vez, esse tipo de piada nos faz refletir sobre a liberdade de expressão em contraponto com a ética. Outra reflexão é em relação ao comportamento das pessoas. Aqui em Guarapuava, por exemplo, não estamos acostumados a ouvir, a ler comentários expondo sentimentos grotescos  de pessimismo contra a cidade? Não existe  a política do ‘quanto pior, melhor’?  Não se paga para aplaudir alguém que fala mal da cidade? Não riem da própria desgraça?

O que será isso? Falta de uma identidade, de uma costura social de inclusão, de amor à terra que lhe dá o pão de cada dia?

Mas afinal, rir dos outros é universal. Uma prática que existe desde as civilizações mais antigas. Mas como diz o humorista Daniel Nascimento da Cia. Barbixas de Humor, diz que para ele, na atualidade, existem três tipos de humor. O clown que ri de si mesmo e encontra saídas inusitadas para tomar atitudes, tendência que ele e os Barbixas seguem; o bufão, que gera o riso apontando para os outros, para o que acha errado ou ridículo, e consegue trazer isso para todos de forma engraçada; e o non sense. “Atacar alguém está longe de ser uma obrigação para quem faz humor. Porém nenhum desses estilos é menor que o outro”.

Para o comediante o humor não deve ter limites.  Entretanto, quem os determina é o humorista. “Tem que saber equilibrar inteligência, criatividade e o seu tempo”. Sendo assim,  como o artista tem o direito de fazer o seu humor como bem entender, nem que seja o da auto-depreciação, tem que dar a liberdade para que também o critiquem. A liberdade deve vir, de fato, em primeiro lugar. Sem censura.

Comentários

WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com