O equívoco de Roger Waters

*Paulino Lorenzo

Desde já deixo um spoiler de que este artigo é bastante pessoal e um tanto quanto passional de minha parte, portanto, se o leitor continuar aqui, o que muito me agradaria, verá, antes de mais nada, um desabafo sincero sobre o quanto alguém que apreciamos e respeitamos pode crer estar tão certo no modo de pensar e tão enganado no modo de agir.

Quem me conhece pessoalmente, ou tem lido meus textos, sabe que sou adepto, e muito, do rock progressivo do Pink Floyd. E mais que isso, parte do que sei da língua inglesa aprendi traduzindo as letras das músicas do Roger Waters, principal letrista da banda após a morte de Syd Barret, aliás, acredito que minha paixão pela filosofia surgiu justamente interpretando essas letras e meu modo de pensar encontrou eco em um verso da canção Breathe, que diz o seguinte: “por mais que você viva e mais alto que voe / e os sorrisos que você vai dar e as lágrimas que vai chorar / e tudo o que você toca e tudo o que você vê / é tudo o que a sua vida será”. Tenho essas duas últimas frases escritas a mão permanentemente na minha carteira.

Isto posto, é importante ressaltar que o Pink Floyd, mais especificamente, Waters, sempre foi um ativista anticomunismo e ele deixa claro este seu ponto de vista quando lança o álbum Animals (que estou ouvindo neste momento) em 1977. O Disco foi fortemente inspirado no livro A Revolução dos Bichos do escritor inglês George Orwell, que se trata de uma crítica ferrenha ao Sistema Comunista Stalinista. Já em 1979 a banda lança o disco The Wall e a crítica, desta vez, se direciona aos Sistemas Fascistas de Governo. Resumindo, Waters luta contra Regimes Totalitários de Poder e isto é ótimo porque necessitamos que vozes de pessoas famosas e idôneas que se façam ouvir pelas quatro curvas do mundo. E é o que ele tem feito desde sempre, andando por aí e espalhando esta mensagem contra os “ismos”, apesar de que sua postura atual mostrar que ele está defendendo o socialismo como melhor forma de governo.

Daí ele vem para o Brasil. Eu que já havia assistido o show de David Gilmour na Pedreira Paulo Leminski, tratei logo de comprar os ingressos para assisti-lo no Estádio Couto Pereira, também em Curitiba. Para os que não o conhecem, Gilmour era o guitarrista e a voz do Pink Floyd enquanto a banda existiu. Somente quem desconhece a obra da Banda achou que iria ao show e não veria demonstrações de repúdio aos fascistas conhecidos do mundo.

Apesar de não me sentir confortável com este tipo de manifestações mantive meu interesse em estar presente ao evento. E a polêmica surgiu já na primeira noite em São Paulo quando, durante uma parte do show, foram projetados nomes de políticos do mundo que, segundo Waters, são fascistas e dentre eles surgiu o nome do então candidato à presidência o Senhor Jair Messias. Naquele momento, apesar de não concordar com Waters, entendi o porquê de ele pensar assim. O fato é que o Senhor Jair tem o costume de ser muito contundente nas suas falas e não tem freio na língua, portanto, qualquer um que quiser pode achar na internet vídeos do mesmo se expressando a favor de “matar todos os bandidos” ou, o que é pior, concordando com a tortura. Aliás, foi falando assim que o mesmo se elegeu presidente do Brasil. E o show em Curitiba foi se aproximando e eu ainda interessado em estar na festa. Surge então na mesma internet uma entrevista de trinta e sete minutos em que o Roger fala com o muito famoso Caetano Veloso. Ele diversou como se fosse íntimo dos assuntos brasileiros, falando abertamente contra o candidato Bolsonaro, sempre arrimado pelo totalmente socialista Veloso. Tolerei mais este episódio porque sempre soube bem distinguir os artistas que gosto de suas vidas particulares. Cabe um adendo aqui, para quem não sabe, Caetano, Chico Buarque e inúmeros outros cantores e atores são seguidores do Partido dos Trabalhadores e idolatram o Senhor José Inácio e não é coincidência que todos eles façam seus shows pelo Brasil amparados pela magnânima Lei Rouanet. Interessante notar que um artista do porte de Caetano Veloso, com uma fortuna calculada em sessenta milhões de reais (a qual não divide com outros pobres socialistas que ficam só no “pão com mortadela”) necessita de captar, por exemplo no seu último show, cerca de oitocentos mil Reais para fazer uma turnê por vinte e duas capitais brasileiras. E ainda temos que pagar para assisti-lo.

E eu firme no propósito de ir ao show. Só que daí saem notícias em toda a mídia que o Waters solicitou na justiça autorização para visitar o Senhor José Inácio na prisão em Curitiba, onde o mesmo se encontra condenado em 2ª instância por crimes de corrupção. Aí foi que o caldo entornou e eu decidi jogar fora os R$ 496,00 que gastei e não fui ao espetáculo. Minha tolerância neste caso se esvaiu quando percebi que não era só uma opinião política embasada nas falas do Senhor Jair. Ele realmente acredita que o Brasil já é um estado fascista que prendeu um político “inocente” e que o nosso judiciário é falho ou corrompido e neste ponto não posso, de maneira alguma, concordar. Ele se deixou levar por jornais de esquerda como o português Público ou o The Guardian inglês, que mantém seus jornalistas, também de esquerda, aqui no Brasil e estes, como não podia deixar de ser, baseiam suas opiniões nos muitos “companheiros” que permanecem na defesa do condenado em questão. De minha parte a minha desistência do show não foi uma decisão ideológica e sim puramente racional. Não posso aceitar que um estrangeiro duvide da idoneidade de nosso sistema jurídico sem ter vivido aqui. Antes que os críticos de plantão se exaltem respondo que sim, o nosso sistema de leis é falho e comete erros. Todavia, no caso do Senhor José Inácio, que atingiu uma envergadura mundial, onde a própria ONU deu os seus pitacos (que vão totalmente contra o nosso sistema legal), não haveria possibilidade de haver erros ou corrupções de nossos juízes. O Ex-presidente cometeu crimes e está pagando por isso. Mesmo os Caetanos e Chicos e todas as pessoas esclarecidas que têm o Senhor José Inácio como um ídolo sabem que o mesmo incorreu em maracutaias diversas para amealhar o patrimônio que ele mesmo divulga. E o Senhor Roger se equivoca quando sai em defesa deste.

Não obstante, deixo claro que mesmo que concordasse com as ideias de Waters teria escrito este texto, mesmo porque, como já disse antes, sei separar a arte do artista ou neste caso específico o político de seus atos. Sou a favor do Estado laico, da escola sem partido e dos shows sem política. Continuarei ouvindo Pink Floyd nos meus discos de vinil porque a arte permanece mesmo que os artistas, na sua vida pessoal, cometam seus mais rudes equívocos.

*Graduado e pós-graduado em Filosofia, livre-pensador, contista e poeta amador, cinéfilo, apreciador de blues e do Pink Floyd.

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