O paradoxo da Escola sem Partido

*Paulino Lorenzo

Após meu texto sobre o Roger Waters, que nem tratava sobre este tema, uma amiga de longuíssima data, que labora no Sistema Educacional em Curitiba, demonstrou-se preocupada com minha opinião favorável à Escola sem Partido. Da mesma forma, uma leitora solicitou, através de um comentário escrito ao final daquele mesmo texto, que eu pensasse melhor sobre o assunto. Em respeito às duas, fui além. Passei um bom tempo lendo a opinião de juristas, professores, pessoas comuns e, ainda, assisti vários vídeos onde personalidades, filósofos, blogueiros e, também, pessoas comuns, versavam sobre este tópico em particular. De início fiz o que penso que todo mundo que opina sobre algo faz, ou seja, fui ler na íntegra o tão falado Anteprojeto de Lei Federal que, se aprovado, “Institui o Programa Escola Sem Partido”. Não é necessário nenhum conhecimento específico em leis ou pedagogias de ensino para perceber, de imediato, que o anteprojeto apenas reúne em um só documento itens que já tratam do assunto na própria Constituição Brasileira e, portando não a corrompe ou contradiz. Uma Comissão Especial da Câmara Federal, em Brasília, analisa o projeto que recebeu o título de PL 7180/14.

Muitas das críticas sugerem que a aprovação da lei seria censurar os professores e, por mais que eu deseje uma escola apartidária, tenho que reconhecer que sim, seria uma forma de censurar, ou melhor, evitar que certas opiniões sejam transmitidas para mentes ainda em formação, que são verdadeiras tábulas rasas prontas para absorverem o que ouvem de pessoas em posição de destaque ou poder, como é o caso de qualquer professor. Todavia, neste caso específico, paradoxalmente esse controle é mais do que necessário. Isto porque é inegável que nos dias atuais (e já há bastante tempo) o bom senso e a imparcialidade debandaram das salas de aula e não se trata mais apenas de um professor responder a seu aluno sobre em que ele vai votar para este ou aquele cargo, o que seria totalmente aceitável. O Fato é que as salas de aula viraram verdadeiros campos de batalhas doutrinárias, principalmente nesta última e nefasta eleição. Digo nefasta pelo grau de degradação que os postulantes aos cargos se submeteram a fim de lograr êxito no pleito eleitoral. Contudo, é justo dizer que a esmagadora maioria destes professores (e digo isto sem nenhum tom pejorativo) têm um viés ideológico à esquerda e é natural para os que militam pelas tendências socialistas serem mais passionais ao transmitir seus pensamentos. Isto tem uma razão muito lógica. Estes professores que aí estão, principalmente àqueles ligados às áreas das ciências humanas, foram ensinados (senão doutrinados) pelo sistema pedagógico de Paulo Freire. Antes de que se crie um tumulto aqui, já que para muitos criticar o Senhor Freire é uma heresia, digo que sofri intensamente o tipo de doutrinações passadas aos estudantes durante o meu período como universitário, sendo que, inclusive, fui presidente do Centro Acadêmico do curso de Filosofia, um feito e tanto para quem sempre se posicionou ao centro e além do mais era militar da ativa do Exército Brasileiro (imaginem os embates que participei por causa disto), portanto sei bem do que falo quando digo que, por seguir com veemência os ensinamentos do Senhor Freire é que nosso sistema educacional está praticamente falido. Se você leu o livro Pedagogia do Oprimido do dito senhor, um texto profundamente marxista, sabe que ele passa mais tempo incentivando a revolução de alunos contra pais, professores e qualquer tipo de autoridade do que tentando conceber um processo ensino-aprendizagem mais eficaz. Para deixar claro utilizarei um silogismo, que não passa de um raciocínio lógico onde a partir de duas premissas verdadeiras chegamos a uma conclusão lógica e irrefutável: 1. Não se pode negar que nosso sistema de ensino é baseado no Paulo Freire, tanto que o mesmo é considerado patrono da Educação Brasileira. 2. O Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) afirma que, em 2017, sete de cada dez estudantes do ensino médio têm nível insuficiente em português e matemática, que são as mais básicas disciplinas do nosso currículo escolar. Portanto, conclui-se que o sistema educacional do senhor Freire não atingiu seus objetivos. A não ser que os objetivos sejam exatamente formar cidadãos prontos para defenderem com unhas e dentes os sistemas de esquerda.

Pelo bem deste artigo e para ter um embasamento melhor do que escrever tive o desprazer de assistir vários vídeos onde “professores” doutrinam seus alunos com palavras de ordem e um discurso massificador. Lembrei-me, então, de quando frequentava os bancos escolares na década de setenta, no que seria o ensino fundamental hoje, em pleno Regime Militar. Tínhamos a disciplina Educação Moral e Cívica, que reconheço tinha um caráter doutrinador, onde o professor Bocchino, que teria toda a liberdade do mundo para nos catequizar contra os sistemas de esquerda sequer falava disto. Só o que lembro era aprender a cumprir as leis vigentes, respeitar os Símbolos Nacionais, a cantar e interpretar a letra do Hino nacional Brasileiro, como ser um bom vizinho ou seja, a ser um cidadão. Foi então que os critérios estabelecidos pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, condenou e erradicou a Educação Moral e Cívica, bem como outra disciplina, Organização Social e Política do Brasil, por terem sido consideradas impregnadas de um “caráter negativo de doutrinação”. Pois bem, se isto era verdade na época, digo a doutrinação em sala de aula, decidiu-se extinguir este tipo de ato e não lembro, à época, de críticas tão contundentes por parte da direita do cancelamento das disciplinas. E aí estamos, com o que parece, com um novo método negativo de doutrinação, realizado agora por professores das mais variadas disciplinas. O que fazer?

Por isso o paradoxo na minha mente, não gostaria que fosse necessária a aplicação de uma lei que tolhesse, mesmo que em parte, a liberdade de expressão de um professor em sala de aula, mas, com a falta de razoabilidade de grande parte deles, pelo menos por agora, sou forçado a aceitar a Lei (caso aprovada), o que aliás é o que fazem os cidadãos de bem.

*Graduado e pós-graduado em Filosofia, livre-pensador, contista e poeta amador, cinéfilo, apreciador de blues e do Pink Floyd.

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