O que foi 1964?

*Paulino Lorenzo

“Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos. ”

Winston Churchill

Começo este texto com uma frase sobre a democracia para deixar bem claro que este autor é, primordialmente, um democrata nato. Entretanto, haja vista a controvérsia que este tema suscita, quero, ainda, esclarecer que uma das benesses da democracia é justamente o direito à opinião e que você, leitor, ao final desta crônica concordará ou não, mas, o respeito ao ponto de vista de cada um de nós será garantido.

Quando se indaga sobre o Brasil de 1964 a 1985 recebe-se, imediatamente, dependendo do interlocutor, as definições: regime militar, ditadura militar, anos de chumbo, revolução democrática. Isto porque temos, grosso modo, três tipos de interessados no assunto. Os que viveram nesta época, divididos entre aqueles apoiaram e os que se rebelaram e os demais, que só compreendem o que se passou baseado no que ouviram destes dois primeiros tipos. Para mim 1964 é ano emblemático, pois foi o ano em que nasci e, portanto, pertenço a este terceiro grupo que aprendeu sobre este período nos livros e com as pessoas daquela época. Durante minha infância e adolescência nos anos 60 e 70 nunca pude perceber as restrições que uma ditadura normalmente impõe aos cidadãos. E antes que alguém diga que eu era um jovem alienado digo que possuo o hábito da leitura desde meus 13 anos e que em 1978 frequentava cursos de teatro assistindo e representando peças de Bertold Brecht (para quem não sabe um dramaturgo marxista ao extremo). Sempre fui um tanto quanto rebelde e crítico da sociedade em que vivia. “Curtia” Led Zeppelin e Janis Joplin, frequentava o PAVOC (quem viveu em Curitiba da década de 80 sabe…) e, com 17 anos tive contato com a literatura de Gramsci e Marx e confesso, com uma profunda vergonha hoje, que cheguei a usar camisetas com aquela foto famosa do Guevara. Mesmo com este passado, que poderia sugerir um potencial militante de esquerda, o Exército me convocou e lá pude conhecer o outro lado da história, já que fiquei por 35 anos envergando a farda verde-oliva. O que aprendi com isso? Que mais uma vez o filósofo Aristóteles estava certo quando afirmava que “a virtude está no meio”. Voltando à minha juventude, apesar do modo como pensava ou me vestia, andava tranquilo pela cidade de Curitiba e nunca sofri qualquer tipo de violência ou censura. Então, repito caros críticos, não percebi a “ditadura” por que, de fato, para nós, a esmagadora maioria da população, ela, se houve enquanto ditadura, passou despercebida para o cidadão comum.

Para os mais jovens cabe aqui ressaltar, sem querer ministrar aula de história, que no mundo da década de 60 surgiu uma corrente socialista comunista muito forte e na América Latina ela encontrou um campo muito favorável para crescer, haja vista que este sistema apregoa a justiça social como um de seus pilares. Daí surgiram ditaduras por toda América do Sul.

Falemos, pois, sobre ditaduras e para isso recorro à estatística, já que, independentemente de ideologia, os números não mentem. Para mim o que pior pode acontecer em qualquer sistema de governo é a perda da vida humana motivada por embates a favor ou contra o sistema. E a Organização das Nações Unidas, dentre vários estudos sobre ditaduras, elege o percentual de mortes por cada 100 mil habitantes como um excelente instrumento para estudo do caso e disponibiliza gráficos que nos ajudam entender melhor o tema. Pois bem, o Brasil figura, entre todas as ditaduras das Américas (tomando neste caso o Brasil como uma ditadura no verdadeiro sentido da palavra), como a menos letal das Américas. Não custa repetir para os críticos de plantão que toda a vida é valiosa e como disse o escritor Thomas Kennealy, “quem salva uma vida, salva o mundo inteiro” e, portanto, não estou desmerecendo qualquer uma das 434 vidas perdidas durante estes 21 anos. Todavia, contra fatos não há argumentos e, em períodos semelhantes de tempo, na Ditadura Pinochet no Chile 3.000 pessoas perderam a vida e na Ditadura Videla da Argentina foram 30.000. Primeiro ponto a ponderar: nas ditaduras o usual era um militar de alta patente tomar o poder para si e lá permanecer até morrer ou ser deposto. No Brasil, no período citado, 5 militares se alternaram no poder respeitando o tempo de mandato presidencial vigente à época de 5 anos, o que nos indica que o poder foi “tomado” em nome do Estado Brasileiro e não em nome de um governo particular. Não há dúvidas que houve, em determinados momentos, abusos e violência excessiva (tortura inclusive) contra aqueles que insistiam e “retomar o poder” em nome da democracia e instalar um novo sistema de governo que aparentemente era perfeito, o comunismo, disfarçado numa forma mais branda denominada social democracia. Agora tenho que retornar aos números para falar da mais letal ditadura das Américas, a Ditadura Castrista, em Cuba, que matou 7.326 nos 57 anos de poder de Fidel Castro. Lembre-se que Cuba é um país minúsculo, com uma população atual menor que a da cidade de São Paulo, por conseguinte o número de mortes é exponencialmente mais alto que nas demais ditaduras. Bom, há um porém, lá foi um processo ao inverso, tomou-se o poder da direita e instalou-se o comunismo. Segundo ponto a ponderar: Que surpresa! Então o comunismo é também uma ditadura, que oprime seus cidadãos, que os mata quando se rebelam e que hoje não sobrevive nem na Rússia, país que inventou o sistema? Já que voltamos a falar em números não custa relatar que o sistema comunista, liderado por Stalin, foi o responsável pela morte de 20.000.000 (sim, vinte milhões) de pessoas que não concordaram com a forma de governo.

Mais um ponto a ponderar: Os ditadores, segundo qualquer pesquisa feita, tornam-se milionários, inclusive o comunista Fidel que antes de morrer foi considerado um dos mais ricos ditadores do mundo (isto porque o comunismo trata de dividir as posses entre todos igualitariamente). E os “Ditadores” do Brasil? Não há nenhum vivo, mas, todos morreram com as posses que lograram com o seu salário de Oficial General reformado (são bons rendimentos, entretanto, muito menos do que as pessoas acreditam ser).

Tudo isto dito, como responder o que foi 1964? Deixando os jargões e as definições de lado, acredito piamente que foi a única forma possível, naquele instante da história, de impedir a comunização do Brasil. Eu entendo o fascínio que esta ideologia causou quando eclodiu. A propaganda que chegava era perfeita, o mundo seria melhor e os “companheiros” não tardaram em conhecer Cuba e Rússia para treinamentos paramilitares e doutrinações. O fascínio era tão grande que contagiou inclusive o próprio presidente João Goulart que, não nego, tinha um alto percentual de aprovação popular, bem parecido com o Senhor Ex-presidente, hoje condenado, Luiz Inácio (o que é perfeitamente normal em governos populistas). A sorte para nós brasileiros, aqueles que desde sempre execramos o comunismo, foi que os militares, e grande parcela da população, estavam atentos e decidiram por fim àquela situação. Passado, o que eu chamo de período de contágio do perigo vermelho, o poder foi devolvido às mãos civis em 1985. No tempo certo, prova disto foi a União Soviética desmoronar junto com o Muro de Berlim em 1989. Então, essa discussão de rótulos é desnecessária. Para quem queria o comunismo foi uma Ditadura terrível; para os de extrema direita uma Revolução Democrática e para nós, cidadãos que passaram por este período sem praticamente perceber esse embate ideológico, foi um Regime Militar.

Podia parar por aqui, todavia, tenho um último ponto a ponderar nesta crônica: Perceberam que muitos dos que foram presos durante o regime militar hoje se encontram novamente presos, ou estão sendo processados por corrupção e lavagem de dinheiro? Isto me traz à lembrança uma frase do penúltimo presidente militar, General Ernesto Geisel, que iniciou o processo de devolução do poder em 1978: “Se é a vontade do povo brasileiro eu promoverei a Abertura Política no Brasil. Mas chegará um tempo que o povo sentirá saudade do Regime Militar. Pois muitos desses que lideram o fim do Regime não estão visando o bem do povo, mas sim seus próprios interesses”.

PS 1: Qualquer relação desta frase com a realidade atual NÃO será mera coincidência.

PS 2: Está claro para mim que não cabe, nos dias de hoje, um novo Regime militar, ou o que seja, nem aqui nem em lugar nenhum do mundo…

*Graduado e pós-graduado em Filosofia, livre-pensador, contista e poeta amador, cinéfilo, apreciador de blues e do Pink Floyd.

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