O que quero do meu país

*Paulino Lorenzo

Tenho acompanhado, já há algum tempo, a campanha de vídeos espontâneos de uma determinada empresa televisiva onde os brasileiros expressam livremente que país desejam para o futuro. Aparecem todos os tipos de anseios, sempre muito determinados e, principalmente, sinceros.

Venho maturando minhas ideias sobre o assunto e como penso não ser possível explicitá-las num vídeo tão curto, e acreditando que a tal emissora não aprovará a linha editorial que pretendo seguir, resolvi escrever aqui que Brasil eu quero para o futuro.

Fui educado nos anos 60 e 70 como sendo o jovem responsável pelo futuro do país. Acredito piamente que fiz minha parte, contudo, o futuro para mim já chegou e esse Brasil velho de guerra está longe de ser o Estado de Democrático de Direito ideal para mim ou para qualquer outro habitante de bem da nossa “terra brasilis’. Isto posto, tenho alguns desejos.

Primeiro, exijo, já que me seria de direito, haja vista ser cumpridor das normas sociais e econômicas impostas a mim enquanto cidadão brasileiro, que meu país de agora (chega de esperar o futuro) seja, antes de tudo, um país de LIBERDADE, onde todos tenhamos o direito de escolher sem ser criticado ou admoestado por isso. Quero um Estado laico onde eu seja livre para ser católico, espírita, evangélico, umbandista… ou ateu; requeiro, sendo eu indígena, negro ou branco, ter a autonomia de galgar qualquer posto ou status social que meu intelecto me permita, sem que para isso dependa de cotas; pleiteio, sendo eu mulher, homem, hétero, homo, trans, cross gender ou neutro, laborar o meu sustento recebendo por isso o valor exato de minha capacidade de trabalho e não o do meu gênero ou opção sexual; anseio ser livre o suficiente para não mais ter que que viver atrás de grades e sistemas de segurança e poder sair a qualquer hora ou em qualquer lugar sem temer por minha vida; Claro que desejo, também, um brasil onde a saúde de todos seja prioritária e de qualidade onde, se eu quiser, possa eleger um plano de saúde particular que não se omita quando, de fato, eu o acionar. Enfim, quero que todos tenham o direito de ter a liberdade de poder escolher sobre temas polêmicos: se quero ou não abortar, se legalizo ou não as drogas, se devemos julgar menores de idade como adultos quando estes cometem um crime grave, se concordo ou não com o casamento homoafetivo e se quero ou não portar armas. Veja bem, você possuir o direito não quer dizer necessariamente que opte por ele, um exemplo simples: este autor, apesar de ter o conhecimento técnico necessário e possuir o direito legal de portar armas, nunca anda armado.

Meu segundo desejo para o Brasil de agora diz respeito à Justiça. Almejo um país justo. Ou seja, quero que meu sistema judicial funcione para todos e em todos os níveis; que o sistema prisional seja adequado a receber todos aqueles que forem condenados; que as nossas penitenciárias não estejam tão superlotadas com presidiários, quase sempre pobres e negros, que não possam receber também, e principalmente, essa “elite” corrupta e corruptora de nosso sistema social e político que aguarda, sem pressa alguma, os infindáveis recursos e embargos que a nossa arcaica jurisprudência oferece. Este sistema tem que ser eficaz e menos moroso pois, o preço da liberdade universal é alto, já que ela possibilita que alguns a utilize para roubar, matar, corromper ou saciar seus instintos mais ignóbeis.

Apesar de pretender muitas outras coisas para esse hiperbólico país da América do Sul onde vivo, vou encerrar aqui desejando, ainda, e sobretudo, que tenhamos uma educação de qualidade. Não esta educação partidária, deficitária, ineficiente e classista; não esta educação que transforma a incultura em massificação de ideias; não esta educação ministrada por professores, já mal formados e pessimamente remunerados. Uma educação igualitária e gratuita, com os conteúdos básicos necessários para a formação do educando; com uma grade curricular unificada nacionalmente; onde a leitura, mais que uma obrigação, seja o catalisador de todo o conhecimento necessário para a formação da visão aristotélica de um cidadão pleno, onde sua função não se resuma somente em eleger representantes e sim, exigir direitos, cumprir deveres, opinar livremente e se inserir profundamente na organização da sociedade civil. Que não se contente somente em saber o que o estado fará por si mas, o que ele pode fazer pelo Estado.

Ora, senão vejamos! Ao reler meu texto procurando verificar se está compreensível ou não chego à conclusão que a solução é muito simples: foquemos nossos esforços nesta educação que forma cidadãos verdadeiros e estes farão o necessário para transformar este distópico país no Brasil que eu quero para AGORA!!

*Graduado e pós-graduado em Filosofia, livre-pensador, contista e poeta amador, cinéfilo, apreciador de blues e do Pink Floyd.

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