O Villas Bôas que eu conheço.

Qualquer pessoa que acompanhou, mesmo que minimamente, as notícias relevantes do nosso país nos últimos anos já ouviu falar do General Villas Bôas. Entretanto, para aqueles que desconhecem o assunto, trata-se de um militar que ocupou cargos dos mais importantes dentro do Exército Brasileiro: foi Comandante do 1º Batalhão de Infantaria de Selva, Chefe da Assessoria Parlamentar do Gabinete do Comandante do Exército, Comandante Militar da Amazônia, Comandante de Operações Terrestres e Comandante do Exército Brasileiro.

Eu tive o privilégio de não só conhecer, mas, de servir sob seu comando direto em parte de minha carreira e, mais do que o “militar”, eu pude conhecer a “pessoa” Villas Bôas e é dela que tratarei neste artigo e não pretendo discorrer sobre a enfermidade que o acomete.

O General é tratado entre seus pares simplesmente como VB e, talvez transgredindo um pouco a hierarquia assim o tratarei neste texto, principalmente com o intuito de homenageá-lo de uma maneira mais pessoal.

A primeira lembrança que me vem à mente quando se trata do General VB foi em Manaus, ele ainda General de Brigada, Chefe do Estado-Maior do Comando Militar da Amazônia. O general estava há pouco tempo nesta função e nós não o conhecíamos o suficiente para entender como era esta sua personalidade peculiar que o distingue dos demais. É um fato simples, que eu mesmo presenciei, que é bem provável que ele nem se lembre: Ele caminhava por um corredor a céu aberto, absorto com alguns papéis, quando passou por um soldado recruta que fazia um serviço de limpeza. Este ao identificar o General apavorou-se um pouco, deixou a vassoura cair no chão e prestou a continência regulamentar na posição mais correta possível. O General não notou o menino que tremia como uma vara verde e seguiu caminhando. Alguns passos adiante, se deu conta do ocorrido e retornou ao soldado que ainda permanecia na posição, acalmou o jovem e passou uns bons 10 minutos conversando com o mesmo. Para quem está acostumado com o ritual militar sabe que a continência é um ato de respeito e cumprimento a uma autoridade ou superior hierárquico e deve ser respondida por este simplesmente com o mesmo gesto. Este episódio demonstra bem o tratamento humano, muito além do esperado, por parte do “VB” para com todos.

Nesta época minha missão era de Comunicação Social e eu acompanhava diuturnamente o General nas mais diversas missões diplomáticas com Parlamentares, Embaixadores, Militares Estrangeiros, Governadores e etc. E era notório perceber sua capacidade de interlocução, seu cabedal de conhecimento, não apenas militar, para tratar de todo e qualquer assunto com nossos então convidados. Muitas vezes, ao receber e acompanhar autoridades diplomáticas, o General, sem qualquer egocentrismo ou vaidade, delegava a mim o papel de anfitrião, demonstrando assim que confiava e sabia reconhecer o valor de seus subordinados.

Havia, também, as missões estritamente militares em que o acompanhei, percorrendo toda a Amazônia, indo em cada Quartel e em cada Pelotão de Fronteira, onde o General sempre exercia seu poder de maneira enérgica, porém humana e atenciosa, sempre ouvindo e orientando pacientemente os jovens Tenentes que comandavam aquelas pequenas Unidades Militares que são a primeira linha de defesa nas nossas fronteiras.

O General Villas Bôas é, antes de tudo, um homem de família. Conheci e convivi com Dona Cida e seus filhos, em especial com a menina Adriana, na foto (conhecida como Drica), que hoje é sua fiel escudeira. Certa vez, durante uma missão comemorativa até o alto do Pico da Neblina (ponto mais alto do brasil) fomos acompanhados de alguns familiares. Na metade do caminho a jovem Drica, não se sentido bem, resolveu retornar. Naquele momento o General VB deixando de lado a oportunidade ímpar da comemoração, reassumiu o papel de Pai e retornou com ela para a Base do acampamento porque, reiterando o que afirmei acima, a família para ele é primordial.

Percebam que muito falei de poder e hierarquia, todavia, no mercado de trabalho e principalmente nas Forças Armadas a hierarquia é fator preponderante e todos já passamos por situações onde percebemos que nosso superior hierárquico nem sempre é, necessariamente, melhor ou mais competente que a gente. Digo isto porque trabalhar sob o comando do General VB era muito edificante pois ele age sempre como líder e, não raro, como mentor, direcionando cada um de seus comandados, não importando seu posto ou graduação.

Caros leitores, não pretendi aqui escrever um conto ou uma biografia não autorizada do General VB, se bem que tenho várias histórias interessantes sobre sua pessoa, tal qual a história dos óculos que ele sempre relembra quando me vê. Este texto foi somente uma forma que encontrei para homenagear esta pessoa realmente singular que, apesar do que alguns escreveram, não é herói nenhum (e duvido que ele mesmo se sinta como tal). O General VB simplesmente é um CIDADÃO exemplar, um ser-humano diferenciado, um militar muito acima da média e um exemplo a ser seguido por todos aqueles que estão ou estarão em um cargo que venha a impactar outras pessoas.

Por motivos diversos que a carreira militar nos impõe não pude seguir sob o comando direto dele, entretanto, o reencontrei anos mais tarde, ele já como Comandante Militar da Amazônia. Deste encontro guardo comigo uma frase que o General VB disse para mim no aeroporto de uma pequena cidade no interior do Amazonas: Lorenzo, eu nunca deveria ter deixado você sair “debaixo de minhas asas”.

Meu caro General eu lhe digo que na verdade eu nunca saí, já que daquele tempo até hoje procuro espelhar minhas atitutes para com os outros naquilo que aprendi durante todo o tempo em que tive a honra de estar ao seu lado.

SELVA!!!

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