Que Deus tenha piedade de nós!

(Foto: Reprodução/Pixabay)

Tende piedade de nós! É só isso que podemos invocar, a julgar pelas coisas que estão acontecendo neste momento no Brasil. Embora sempre soube da máxima de que política e religião não se misturam, não é isso que estamos vendo nos últimos dias. No atual governo, religião e política se misturam sim, numa alquimia desesperadora. Perdidos aqui na terra, só resta invocar aos céus. E os pedidos de salvação surgem de todos os lados.

A hastag, #OrePeloBrasil ficou entre as mais comentadas do Twitter na segunda (20). Pedidos de orações e de bênçãos, manifestações contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional se misturaram, como forma de blindar o presidente dos “hereges” que segundo seus seguidores, tentam derrubá-lo. Aliás, o próprio presidente Jair Bolsonaro que é evangélico confesso e que tem o apoio desse segmento religioso está pedindo orações.

Nesta terça (21), por exemplo, ele [o presidente] se rendeu aos católicos numa consagração do país a Jesus Cristo, por meio do Imaculado Coração de Maria. Mas os evangélicos agora reconhecem os santos católicos? Ou foi uma exceção do presidente que participou do culto em Brasília às 14h, e teve a presença de Dom Fernando Rifan, bispo da Administração Apostólica Pessoal S. João Maria Vianney? O pedido da Frente Parlamentar Católica e dos Movimentos Marianos foi para que a Santíssima Virgem triunfe nesta terra de Santa Cruz. É o catolicismo procurando ocupar espaço no cenário político nessa alquimia que mistura também o povo evangélico. Será mesmo que vivemos num cenário surreal, numa espécie de “queda de braço” entre politica e religião, duas vertentes que pareciam ser antagônicas – embora nem tanto, como nos mostra a história.

Vale observar que Bolsonaro também está ungido por uma legião de apoiadores, entre os quais o “papa” Edir Macedo, que num culto no Rio de Janeiro apelou aos céus a proteção ao presidente e disse que impeachment é “coisa dos infernos”, ao se referir a Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro e seu parente que sofre ação nesse sentido.

E o que dizer do vídeo gravado pelo pastor africano Steve Kunda, e devidamente compartilhado por Bolsonaro no domingo (19) afirmando que o militar foi “escolhido por Deus” para comandar o Brasil ?

Tudo bem que Jair tem Messias no nome, mas aí compará-lo com Jesus Cristo, é “pra acabá “, como se diz por aí – desculpe a língua portuguesa. Indignada, a bolsonarista e deputada estadual mais votada do Brasil, Janaina Paschoal, não poupou críticas ao escrever: “E esse vídeo maluco de Messias? O que ele quer com isso? Eu peço que vocês assistam e respondam: ‘O senhor, um presidente da República, na plenitude de suas faculdades mentais, publicaria um vídeo desse?”, questionou antes de anunciar que deixará a bancada do PSL.

Paralelamente, a ministra Damares agora ataca o Nordeste brasileiro dizendo que a região possui Manual Prático de Bruxaria para criança de seis anos. Sabe, que às vezes não acredito que leio, ouço e assisto esse tipo de coisas que estão acontecendo no Brasil? Um país que se diz democrático, que acolhe pessoas de todas as partes do mundo com suas crenças, seus costumes. Tudo bem que até então o preconceito estava camuflado e que agora ele ganha cara, ganha palavras que expelem veneno em cada gotícula de saliva, em cada dose de veneno que é destilado pelas teclas em redes sociais.

Tudo isso me levar a crer que estamos de volta ao tempo da Inquisição, das perseguições, da divisão de classes, e literalmente, da “caça às bruxas”. Como consagrar um país com suas peculiaridades, com sua aquarela étnica, com suas desigualdades, com sua pluralidade, incluindo suas diversas crenças a um único Senhor?

Mas daí me pergunto de forma ingênua: o Estado não é laico? A religião não prega a igualdade entre as pessoas? Jesus Cristo, o Messias que, aliás, pra mim foi um dos maiores revolucionários da sua época – não pregava o amor pelo próximo? E o que dizer, então, dos ataques vorazes contra gays, negros, índios e os tão propalados ”esquerdopatas”, como teimam em denominar quem pensa diferente?

E o que dizer do desemprego que aumenta a cada dia, dos cortes na área da educação, dos problemas políticos que permeiam o Congresso, dos vexames que mancham o Brasil em áreas internacionais, das denúncias de corrupção que envolvem um governo que diz imaculado? Será que tudo isso não é suficiente para que a preocupação deixe a seara religiosa e passe efetivamente para a busca de soluções dos problemas que afetam o país?

Bem, como somos brasileiros, portanto, torcemos para que esta Nação encontre o seu rumo, independente de quem esteja no comando. Só nos resta nos agarrar ao Deus da nossa fé. Sim, ao Deus da nossa fé, porque crença não se impõe, se respeita. Que Deus[o de cada um] tenha piedade de nós! O Universo é soberano!

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