(RE)Descobrindo BELCHIOR

Belchior, se não for o maior, tem o maior nome da Música Popular Brasileira (MPB), já que foi batizado como Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes.  E ele, com certeza, foi muito mais do que “apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”. Provavelmente morreu sem dinheiro no banco sim, já que viveu seus últimos anos, por vontade própria, num certo ostracismo, longe da mídia em um autoexílio da sociedade, o que trouxe à baila toda uma série de polêmicas e controvérsias a seu respeito.

(Re)descobri o compositor recentemente quando ouvi uma cantora muito jovem, de nome Daíra, interpretando uma música. No momento em que comecei a ouvir não reconheci a letra e nem conhecia a intérprete. A percepção que tive, ao prestar atenção nas palavras, foi de pensar como aquela canção me fazia lembrar do modo como Belchior compunha e tão logo ela chegou ao refrão da música pude reconhecer a letra de Alucinação, que por algum motivo estava esquecida na minha mente. A partir disto comecei a revisitar toda a obra dele e a me interessar mais e mais pela inteligência e pela singeleza das mensagens que Belchior passava em suas canções. Em um mundo atual onde as músicas não passam de peças publicitárias para tocar nas rádios e nas baladas, onde o ritmo e o embalo são mais importantes do que a letra, é revigorante ouvir e analisar as canções deste nordestino de Sobral.

Apaixonado e profundo conhecedor de poesia Belchior tornou-se um erudito nesta área e as letras de suas músicas são, na verdade, poemas bem escritos de onde, não raro, podemos extrair pensamentos de filósofos como Heráclito, Kant, Schopenhauer e, principalmente, do meu favorito Friedrich Nietszche, cujas semelhanças, conforme o título de um artigo muito bem escrito numa edição da Revista Sonora de 2017, vão “muito além do bigode” que ambos, orgulhosamente, ostentavam. Do alto de sua erudição chegou a musicar 31 poemas de Carlos Drummond de Andrade, poeta cuja obra ele conhecia como poucos.

Para os mais novos é importante salientar que Belchior surge no cenário musical em plena década de 70. O Brasil vivendo um governo militar austero e o mercado da MPB pululando de músicos e compositores escancarando sua insatisfação para com o regime, entre eles Chico Buarque, Caetano e Gil (este pessoal continua insatisfeito). Neste mesmo momento da história nosso compositor cearense, também insatisfeito (talvez com motivos ideológicos diferentes daqueles músicos) escancara seu pensamento de forma pujante, correta e tão bem elaborada que o mesmo criticava, ora a direita ora a esquerda e tinha admiradores dos dois lados da contenda.

Cantava de maneira mansa, com uma escolha de palavras sob medida para expressar seu pensamento e dizia “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve. Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém sem querer ferir ninguém” e em outra canção arrematava: “E eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês”. Desta forma seu intuito era “tocar” o ouvinte e não somente o embalar. Cantar para ele era a melhor formar de argumentar, de se expressar e até mesmo protestar. Isto fica nítido quando ele afirma que “enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não eu canto” e, falando do autoritarismo militar versava desta maneira: “Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo o mal que a força sempre faz. Não sou feliz, mas não sou mudo. Hoje eu canto muito mais”. Entretanto, mesmo com a austeridade dos militares cantava: “Em cada esquina que eu passava um guarda me parava, pedia os meus documentos e depois sorria, examinando o 3×4 da fotografia e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha”. Pensava, como Heráclito, que a vida está sempre em movimento e que precisamos mudar e nos adaptar sempre e acreditava “Que uma nova mudança em breve vai acontecer e o que há algum tempo era jovem e novo, hoje é antigo e precisamos todos rejuvenescer”. Era um otimista nato e acreditava nesta mudança, ao ponto de exclamar “Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro. Ano passado eu morri mas, esse ano eu não morro”.

Todavia, apesar de todo canto, sua obra, em suma, falava da vida e de se viver intensamente e que “Viver é melhor que sonhar. Eu sei que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”.

Tal qual Nietszche, pregava a mudança dos valores de nossa sociedade, que deixássemos a condição de rebanho e por isso afirmava: “eu não estou interessado em nenhuma teoria em nenhuma fantasia nem no algo mais”. Aconselhava que vivêssemos e aproveitássemos a vida com as coisas que estão aqui ou seja, dizia ele: “A minha alucinação é suportar o dia-a-dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”.

Este texto, diferentemente da consagrada obra de Belchior, é bem raso e não abrange nem de perto, o pensamento filosófico do compositor e tem apenas o objetivo de apresentar ou (re)apresentar para o leitor esta figura única que quebrou aquele estereótipo absurdo do retirante nordestino subnutrido e semianalfabeto que foge da seca para a capital e que, apesar das dificuldades conseguiu ficar famoso na voz de nada menos que da grande Elis Regina.

Independentemente do tipo de música que você aprecie no seu dia a dia, tire um tempo e ouça mais, ou ouça pela primeira vez, as canções de Belchior. Ouça, de preferência, lendo a letra e (re)descubra um mundo totalmente diferente no cancioneiro popular brasileiro. Se me permitem ainda sugerir, (re)comece pelo disco Alucinação, de 1976, que na opinião deste que vos escreve é o melhor disco de todos os tempos produzidos no Brasil e traz na letra da música título do LP uma pequena frase que define o autor, o mesmo refrão que me fez reconhecer e voltar a ouvir Belchior. Esta frase, e que permito-me mais uma vez realizar uma inferência filosófica, exprime muito bem o conceito de autonomia da vontade na ética do filósofo Kant que diz: “Amar e mudar as coisas me interessa mais”.

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