Reflexões a partir de uma caneta azul

Quem nunca teve uma caneta azul? Quem nunca perdeu uma caneta azul? Quem nunca escreveu seu nome num pedaço de papel e enrolou no tubo de tinta de uma caneta azul? É essa identificação, essa lembrança dos bancos escolares que fazem com que a letra simples da música – música? –  do maranhense Manoel Gomes tenha se transformado em viral.

Assim, a letra simples do não menos simples Manoel, publicada no YouTube já tem mais de sete milhões de visualizações. Também caiu no gosto de famosos que contribuem para essa propagação. Afinal, quem nunca teve uma caneta azul com a qual escreveu coisas da sua própria vida? Ou ‘mal traçadas linhas’ para a pessoa amada, cuja carta levava semanas, até meses para chegar ao seu destinatário?

E quem ficava à espera do carteiro no portão, por culpa de uma caneta azul? Ou quem nunca depositou uma assinatura naquela nota promissória que se transformava em um ‘fantasma’ assombrando as noites mal dormidas pela preocupação? Ah! São tantas histórias escritas com uma caneta azul. Sim, até o presidente Jair Bolsonaro num passado muito recente se referiu à uma caneta bic. Azul, é claro.

E são coisas simples, mas que chegam a ser bizarras para os ouvidos mais ‘apurados’ que se transformam nos chamados ‘memes’ na era global da informação. Assim, basta uma frase, um gesto desconcertado, uma ‘música’. E pronto! Lá está na boca do povo, tirando da invisibilidade pessoas como Manoel, que saiu da roça para os palcos, para o sucesso na Internet. Que o diga o Tiririca – desculpe a falta de jeito, mas não consigo acostumar com certas situações. Digo, o deputado federal Tiririca. E temos outros por aqui, bem pertinho de nós.

Mas o brasileiro está certo. Ele não tem nada para se preocupar. Afinal o país segue numa boa. A economia encontra o rumo certo. O desemprego está em baixa. A democracia, como deve ser, é ampla e irrestrita (aqui vale a redundância). Não temos assassinatos encomendados e o nosso país continua sendo uma nação. Sem diferenças, sem preconceito, com igualdade, com tolerância, com respeito. Sem qualquer tipo de escravidão. E por falar nisso, dizem que a Princesa Izabel assinou a Lei Áurea a lápis. Mas, será que não foi com uma caneta azul?

E aí, após essa reflexão depois de ter ouvido – e aí saído cantando a ‘caneta azul’, outras questões vão surgindo nessa supervalorização de uma simples caneta azul. Será que as condenações, as delações premiadas, as absolvições, as propinas e tantas outras decisões, boas ou más, são deliberadas com uma caneta azul? Bem, supostamente falando – ou melhor, escrevendo – mesmo estando num teclado, quem não tem, no bolso ou na bolsa, uma caneta azul?

Como se vê, nada mais atual do que o hit do maranhense Manoel. Como se vê nada mais atual do que o humor do brasileiro, que continua apurado. Como se vê, ainda se costuma rir da própria desgraça. Tipo assim, lendo, ouvindo, assistindo ou repetindo frases que são um pouco de cada um. Mas todas com um ponto em comum. Afinal, foram escritas com uma caneta azul.

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