Renata Vasconcellos e a cegueira dos privilégios

“O meu salário não diz respeito a ninguém. Eu posso garantir ao senhor que, como mulher, eu jamais aceitaria receber um salário menor que um homem que exercesse as mesmas funções e atribuições que eu.”

 Renata Vasconcellos para Bolsonaro, na última terça-feira, nesta entrevista aqui.

Lacração à parte, há um problema muito grave na fala da Renata. Um erro muito comum. Ao ouvir falar em machismo, a grande maioria das pessoas (sobretudo os homens) não consegue entender que machismo não é sobre indivíduos e sim, sobre sociedade. O que se critica é uma construção de sociedade que, historicamente, privilegia homens pelo simples fato de serem homens e nega direitos às mulheres pelo simples fato de serem mulheres. Isso é machismo estrutural e é nesse contexto que falamos ao apontar o machismo presente em diversos setores da sociedade. A desigualdade salarial entre homens e mulheres é apenas uma das inúmeras formas de controle social perpetuadas pelo machismo estrutural. Dinheiro é uma forma de poder e o poder pertence ao homem. Oferecer salários menores às mulheres em cargos iguais é uma forma de dizê-las que elas podem ter algum poder, mas nunca igual ou maior que o de um homem. Essa questão é social, não individual.

Renata estava cheia de boas intenções, mas errou rude ao ignorar seus próprios privilégios. Como mulher numa sociedade machista, ela está em situação desigual em relação aos homens. Mas, como mulher branca, letrada e rica, ela está em enorme vantagem em relação à grande maioria das mulheres brasileiras: as mulheres pobres, pretas, periféricas – as mulheres que não tem o privilégio de recusar.

Ao dizer que “não aceitaria” receber um salário menor, ela transferiu para indivíduos a responsabilidade de combater uma condição que é social, não pessoal. A fala de Renata silenciou todas as mulheres cuja a única escolha possível é aceitar porque a outra opção é não comer. Ao levar a desigualdade salarial entre gêneros para o campo das decisões pessoais, ela jogou sobre nós, mulheres, o peso de acabar com essa situação “não aceitando” salários menores e invisibilizou todas as mulheres que precisam, pre-ci-sam, aceitar.

Desigualdade salarial é um problema estrutural que se combate com medidas públicas massivas. Não é uma questão que se resolve apenas com atitudes pessoais.

Do alto dos seus privilégios, Renata não pode enxergar que dizer sim ou não a um determinado salário é um tipo poder: o poder de escolha, que a grande maioria das mulheres em condição de desigualdade salarial não têm.

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