Se fere a minha existência, eu serei resistência.

193 mil mulheres, 530 mulheres por dia, registraram queixa por violência doméstica no ano passado. O Brasil é o 5° país do mundo em feminicídios. Mulheres que apanham e morrem vítimas de seus maridos, ex-maridos; companheiros e ex-companheiros.

O Brasil registrou 49.497 estupros em 2016. Estima-se que apenas 10% dos casos são notificados. É a ponta de um iceberg assustadoramente grande e profundo. 50% das vítimas desses quase 50 mil casos de estupros registrados, têm até 13 anos de idade. 17% têm de 14 a 17 anos. Crianças e adolescentes que são violadas sistemicamente, dentro de suas casas. Vítimas de seus pais, avôs, tios, padrastos, amigos da família.

O Brasil é o país que mais mata LGBTs.
37% desses assassinatos acontecem dentro de casa.
Gays, bissexuais, travestis e transexuais que são agredidos e mortos de suas casas. Outros tantos, são rejeitados por aqueles que deveriam protegê-los. Deixados à margem, vulneráveis para sofrer na rua o ápice das agressões que começaram no seio do lar. Apenas por serem o que são.

É essa a “família tradicional” que vocês estão tentando defender com unhas e dentes. O ideal de “família tradicional brasileira” é preconceituosa, moralista e violenta. Esconde-se atrás da cortina “da moral e da ordem”, se apropria e distorce os valores cristãos e os usam como púlpito para justificar e propagar seu ódio. Esse ideal sádico encontrou na voz de certo candidato a presidência a ressonância e o aval de que estava carente.

Um candidato que declarou que vai revogar a Lei do Feminicídio.
Um candidato que falou que mulher feia “não merece ser estuprada”.
Um candidato que falou que ser “gay é falta de porrada”.
Um candidato que prometeu Ministério a um homem que fez apologia a estupro em rede nacional.
Um candidato cujo discurso dá aval para a perpetração de todo tipo de violência e cujo seus apoiadores andam por aí fazendo sinal de “arminha” com as mãos, em tom de aviso.

Se você quer votar no “mito”, vá em frente. É seu direito.
Aproveite esta eleição e exerça seu direito de expressão com toda a liberdade que a nossa ameaçada democracia (ainda) te oferece. Lembre-se que essa pode ser a última.

Acredito que a maioria das pessoas é boa.
54% do Brasil não é violento, racista, xenófobo, machista e homofóbico.
Grande parte dos 46% que levaram Bolsonaro ao segundo turno também não é. Grande parte das pessoas que odeia o PT também não gosta dos discursos dele. Mas releva, defendendo que ele só fala “umas bobagens” e que pode ser controlado. Eu acho que estão profundamente equivocados.

“As pessoas não são más, elas só estão perdidas”.

Sofri assédio aos 7, aos 12, aos 13 anos.
Um dos homens que me assediaram, era líder religioso.
Os outros dois parentes próximos.
O que segue vivo, hoje em dia frequenta igreja, é “a favor da família” e da castração química para estuprador. Bandido bom é bandido morto, sabe?! Seria hilário se não fosse irônico e triste.

Quanto a mim, não caminharei ao lado do meu abusador.
Eu não vou andar de mãos dadas com a violência, com a hipocrisia, com o moralismo, com a xenofobia, com o racismo, com o preconceito. Eu não vou passar pano pra quem fecha os olhos frente à barbárie e a incitação do ódio. O lado da bala não pode ser a melhor via.

Serei pela democracia sempre.
Pela tolerância.
Pelo amor.
Pela cultura, pela arte, pela educação.
Pela liberdade.

Se a maioria decidir que será pela bala, pelo autoritarismo e pelo moralismo; que tenhamos muita sorte. Vamos precisar.
Eu quero que o próximo presidente acerte, mesmo que seja um homem que me causa profunda repulsa. Não quero que o país imploda só para apontar o erro do “outro lado”. Não quero que a violência siga institucionalizada, inflamada e acobertada só para dizer depois que eu e os meus estávamos certos. Pagar com vidas é um preço alto demais.

Por mim, ele nunca. Ele jamais!
Eu não tenho dúvida de qual lado estou.
Eu não vou comungar com meus algozes.
Eu não fecho com estuprador.
Nem de brincadeira, nem pela economia, nem pelo suposto fim da corrupção.

Oposição também é poder. Não se pode ignorar quase 50% de rejeição.
A democracia é isso. Não tenham medo.
Só termina quando acaba e (ainda) estamos todos vivos.
Sinto orgulho de estar do lado que estou.
Eu não fecho com torturador.

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