Sem uma educação verdadeira não há redes que sejam realmente sociais

Tenho observado na sociedade brasileira que as pessoas avançam como sonâmbulas para uma guerra política sem saber exatamente qual é a causa da mesma. Este sonambulismo, cada vez mais evidente, fruto de uma hipnose coletiva, têm acelerado o fim do que um dia já denominamos por democracia.  Diferente de muitos pessimistas, não faria o que faço [escrever e falar sobre esfera pública aqui e ali], às vezes prejudicando meu ócio criativo e às vezes a atividade profissional se não guardasse uma parte de esperança em ver um quadro diferente do que estou vendo hoje.

Em particular preocupo-me com a interferência das redes sociais na vida política nacional e local. Curioso, fui ler a última publicação do Professor Renato Janine Ribeiro [ ex-Ministro da Educação] que trata disto. O título é sugestivo: ‘A Boa Política – Ensaios sobre a democracia na era da Internet’. Ali ficou cristalino que, infelizmente, as redes sociais, muito longe de sua veia emancipatória, gasta mais  energia em “exibir tudo” , “ver tudo”, “saber de tudo” no que diz respeito ao mero entretenimento do que qualquer outra coisa. Todavia é um espaço onde se reflete cada vez menos. A formidável liberdade do homem moderno nunca se revelou tão estéril para o pensamento levando toda a dimensão do respeito e do sagrado para o ralo.

Outro dia, lia uma entrevista de um alto executivo da “Google” fazendo elogios ao pragmatismo e eficiência da mesma em criar dispositivos para fomentar a cura do câncer e o avanço da ciência.  Diante da pergunta se havia alguma área em particular que a Google não tivesse controle sobre a opinião pública em processo de domesticação, respondeu: “Há sim ! Fanatismo e falta de tolerância. Não sabemos como lidar com isso. Sabemos o que fazer com quase tudo.”  Concluiu dizendo que ainda tem esperanças que a Google fizesse um aplicativo para a construção do diálogo, da tolerância e de um civismo necessário.

Mesmo com o acesso de tanta gente nas redes sociais, não vivemos em uma sociedade aberta. Pelo contrário. Quem te lê quase sempre já está de acordo com o que você escreve. Quem não te lê, quase sempre é porque não te avaliza. Uma sociedade de guetos, fechada e autoritária. Este espaço [redes sociais], inicialmente algo genial, viu nascer o conceito de pós-verdade ou uma mentira disfarçada de estratégia para banalizar o que se publica e o que se comenta. Reiteram-se as mesmas coisas, sem nenhum frescor. Temos ali o sinônimo do ‘homem sem conteúdo’ ou ‘o retrato do homem sem gravidade’, que circula no que chamei anteriormente de hipnose coletiva.

Nas redes sociais, não basta a ideia, é preciso saber se alguém está lendo, ouvindo e se as pessoas acreditam nas boas conclusões civilizatórias. Sem educação não há boas redes sociais. Daí a necessidade de defender a boa educação, sem fanatismo de direita ou esquerda, qualificando a diversidade saudável e equilibrada, valorizando professores e professoras que vêem a ética não como um problema dos outros, mas como um problema de todos nós. Este é um passo importante para que nossa classe professoral exerça a responsabilidade de nossa alta função, que não consiste em orientar meninos, adolescentes e universitários para que sejam revolucionários ou conservadores, ou tão somente o reconhecimento profissional e financeiro e  sim para que conheçam os requisitos da cidadania democrática e a exerçam como acharem melhor desde que o ser humano seja considerado.

 

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