Ter pressa por que?

Os caminhoneiros autônomos mostram que não estão para brincadeira e que não adianta os homens de Brasília quererem “tapar o sol com a peneira”. A força dessa mobilização capitaneada pela Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam) encontra eco e desperta a sociedade brasileira. Afinal, além dos transtornos para a locomoção, a população enfrenta desabastecimento de diversos produtos, inclusive alimentos (e já está faltando o gás de cozinha).

Bem que a Petrobras tentou desmobilizar o movimento ao reduzir emergencialmente o preço do diesel em 10%, congelando a tarifa por 15 dias. Depois tudo voltaria a ser como antes. Também zeraram a cobrança do PIS/Cofins sobre o diesel apostando num aumento de arrecadação provocada pela reoneração da folha de pagamento de 28 setores.

Os deputados se apressaram e aprovaram essa proposta no final da noite dessa quarta feira (23), preocupados com a mobilização que, num primeiro momento, acharam que não tomaria a proporção que chegou.

Mas todo o emprenho foi em vão. O Brasil amanheceu com a continuidade dos bloqueios nas rodovias em 20 estados e as consequências já começam a ser sentidas pela população.

E a situação tende a piorar se houve a continuidade da união que parece começar a tomar do país. Parar agora – e me refiro ao movimento paredista – seria enfraquecer o movimento e permitir que o governo deite e role, como vem fazendo até agora.

Mas parecer que isso não está nos planos dos caminhoneiros. O presidente da associação, José da Fonseca Lopes, reiterou nesta quinta feira  que só vai interromper o movimento de protestos da categoria depois de o governo federal sancionar a lei que zera o PIS/Cofins sobre o óleo diesel. Significa que essa redução de tributos pode reduzir em até 14% o preço do combustível na bomba nos postos de abastecimento. A categoria quer também que a política de reajuste dos combustíveis seja mudada, mas Pedro Parente, que preside a Petrobras, já disse que não. Hoje o valor é majorado conforme a cotação internacional do petróleo e a variação do câmbio.

Bem, o presidente do Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM), que é peá candidato à presidência da República chegou a anunciar um acordo com o governo para acabar com a cobrança da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), mas isso não foi levado em consideração pelos caminhoneiros. A medida foi considerada pouco significativa pelo movimento. Afinal, R$ 0,10  por litro de gasolina e  R$ 0,5 a cada litro de diesel, fará uma diferença irrisória no bolso do caminhoneiro que deixa a maior fatia do seu ganho para pagar impostos e a altas tarifas do pedágio. Conversei com um caminhoneiro e ele me disse que num frete de R$ 1 mil, somente R$ 200 reais fica com ele. O restante é para pagar impostos e pedágio.

Mas voltemos a Brasília. Enquanto o movimento aguardava a votação da reoneração da folha pagamentos de alguns setores e da retirada do PIS/Cofins sobre o óleo diesel, o  presidente Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), afirmou que não será possível votar imediatamente o projeto de lei aprovado pela Câmara. “Nossa pauta está trancada por causa da chegada ontem [23] de várias medidas provisórias que vieram na última hora, como sempre faz a Câmara, e que o Senado tem a obrigação constitucional de analisar de acordo com o que determina o regimento”, disse o parlamentar ao site Poder 360. “Não vou desrespeitar o regimento e ficar aqui apenas agradando deputados e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia”, acrescentou.

Dito isso, segundo a mídia nacional, o senador foi para casa, assim como muitos políticos fizeram, voando em jatinhos particulares. Se preocupar e ter pressa por que?

EM TEMPO – Desde o início da política de reajustes diários dos preços dos derivados de petróleo, em 3 de julho do ano passado, medida que Parente já disse que vai mexer, o preço do óleo diesel nas refinarias, aumentou 121 vezes, com alta de 56,5%, de acordo com o Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Em pouco mais de dez meses, o litro do produto passou de R$ 1,5006 para R$ 2,3488. Segura Brasil!

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