Um brinde ao Polaco Hermes Kaminski

PAULO ESTECHE

Passava das 4 da manhã, um sábado de verão, a lua refletida sobre o Alagado do Iguaçu, uma noite e paisagem ideais para os notívagos que buscam inspiração no bucólico e nas vozes do silêncio. O único barulho destoante vinha de um bule de café e de um tacho cheio de água que tremulavam sobre a chapa de um fogão à lenha. Entre os reflexos da luz da lua, na varanda da pequena casa de madeira, percebia-se um homem dando vistosas baforadas num genuíno Cohiba, o melhor entre os melhores charutos cubanos. Na mesa junto ao fogão e a uma pilha de lenha de bracatinga, pairava um tabuleiro de xadrez e um homenzarrão, tinha lá seus 2 metros de altura e mais do que 130 quilos. Vez ou outra, fixava seu olhar na mesma linha de visão das poucas peças que restavam no tabuleiro, tentando achar uma saída para a derrota iminente.

Semanas antes, eu estivera pela Ilha de Fidel em uma longa temporada como periodista, trafegando também pelo roteiro descrito por ErnestHemingway, e não perderia a oportunidade de oferecer ao Polaco Hermes Kaminski um típico regalo cubano. O Cohiba servido com rontresaños, com leves notas adocicadas ao final, mistura aroma e sensação de relaxamento.

Essa combinação, ou só o rum ou só o charuto, é recomendável somente para depois dos 100 anos. Mas, vamos considerar que o Polaco naquela etapa da sua existência como terráqueo já tenha completado tudo isso, somando-se a vidas passadas…

É o que eu poderia oferecer aos meus amigos, naquele momento, retribuindo-lhes o convite de compartilhar com eles um aprazível fim de semana nas barrancas do Alagado – o local preferido de um sem-número de guarapuavanos e tantos das redondezas no Terceiro Planalto.

Em frente ao tabuleiro e timoneiro do fogão à lenha, encontrava-se o Professor Morgado, a nos brindar com sua erudição, um festival de filosofia e teorias da sua própria lavra de sabedoria.

Hermes Kaminski divertia-se soltando fumaça em círculos e um indisfarçável sorriso de canto de boca, na varanda da casa, olhando para a claridade refletida no Alagado. A expressão peralta do Polaco não tinha outro motivo que não o desafio que deixara para Morgado destrinchar: o Rei encurralado por um Cavalo e uma Torre… Mais um lance, mate! O Polaco sabia que a partida estava liquidada. O Morgado também, mas encerraria o “mach” com a pompa de um campeão, aquiescendo com um “quase cheguei lá”, portanto também merecia algo em troca.

Para o Polaco, tudo certo. Um mestre não entra numa disputa para sobrepujar. Ele joga para vencer a si mesmo, melhorando seu rendimento em comparação à partida anterior; se não tiver igual ou superior desempenho, está consciente de que precisa rever as últimas lições.

Tampouco, quando derrotado, um mestre deixa de tirar as devidas lições de uma batalha.

É esta armadura de conhecimento que protege a personalidade dos grandes guerreiros.

Estava eu diante de dois gigantes, o Polaco Hermes e o Morgadão. E olhando para eles com a admiração que sempre cultivei por ambos, eu pelo menos 10 anos mais novo, compreendi que nenhum ser humano consegue crescer sem trazer consigo todos que o cercam. Faça todos grandes, e será um deles.

O resumo daquela noite: por ter perdido, Morgado foi para as panelas fazer polenta, em troca exigiu que o Polaco tocasse e cantasse ao violão uma seleção de Zé Rodrix e de outros ícones da MPB.

Virtuoses como Polaco estavam além do seu tempo na Velha Guarapuava. Descontando-se os programas de outrora, comandados por figuras como Nikon Tembil, João Carlos Prestes Taques, Leomar Kaminski, e outros, pouco se ouvia de Música Popular Brasileira nas emissoras de rádio locais. Também era uma época em que o pós-Woodstock e a beatlemania tornaram-se uma indústria de sons e comportamentos. Devastador para as culturas locais. O Polaco era uma antítese a tudo isso e também ao tradicionalismo gaúcho que desembarcou em Guarapuava na contramão da cultura caipira, muito mais original entre nós, a se considerar nossos laços com a paulistada que colonizou os campos sob a batuta de Padre Chagas. Não que as tradições devessem ser negadas. Mas o que prevalecia era por demais sufocante, engessado, por isso mesmo retrógrado e alienante.

Era uma barreira que limitava a evolução de uma sonoridade local, coisa que o Polaco transpunha com desenvoltura, pesquisando, intercambiando, observando, vertendo para o papel em versos e prosas, em proposituras e prosopopeias, com crítica mordaz e criativa. Literatura, enfim.

Da poesia, que musicou, o Polaco desfilou pelo jornalismo, pela publicidade. Até pelo marketing político ousou, provavelmente porque só assim sentiriam nele “algum valor”, algo da sua arte que pudesse “ter valor”. E o artista, precisando sobreviver, prestou-se ao imprestável…

No tabuleiro, era um enxadrista agressivo, meticuloso, sacrificava a Rainha sem o menor trauma, apostando na final.

E por falar em apostas, um pôquer lhe caía bem dias e noites. Não dispensava um pontinho, uma tranca. O quanto perdesse hoje, ganharia amanhã. Nada como o convívio com os amigos e o estilo que cunhou, mordendo o cigarro no canto da boca ao chulear a carta desejada. Se ela aparecesse na ponta dos dedos, o brilho nos olhos azulados denunciava.

Não havia no Polaco a obviedade, o previsível. Ele competiu o jogo da vida inventando cada lance, inovando, reinventando-se.

A arte e a memória de Hermes Kaminski merecem, de fato, o seu verdadeiro lugar ao sol.

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