Um galope no tempo

Em meio a correria própria das festas de final de ano, entre uma postagem e outra na RSN, pelo olhar do Orlando, que costumo chamar de Negro Meu, fiz uma volta ao passado. Sabe aquelas cenas que você já vivenciou durante a infância e que acabam sendo engolidas pelo dito cujo progresso? Pois é. Ele costuma ir ao um mercadinho ali no Jordão, perto de onde moramos, e para encurtar caminho vai pela vila. São casas simples, do tipo, cadeira na área – como eles chamam o que denominamos de varanda -, churrasqueira portátil, um aparelho de som e, claro, muita música. Enquanto so homens conversam e preparam a carne que será consumida na ceia, as mulheres se comunicam de uma janela a outra. Emprestam um ingrediente aqui, trocam uma receita ali; querem saber que roupa a vizinha vai vestir; enquanto as crianças correm de um lado para o outro à espera do Papai Noel. Ah! Os pisca-piscas são adereços indispensáveis nas janelas e enfeitam também os tradicionais pinheirinhos de Natal. De repente, chega o compadre, vindo do interior, trazendo um pedaço do animal que carneou durante a tarde.

No bar do Polaco, ali na Avenida Rubem Siqueira Ribas, os “solitários”, um em cada canto, bebem o trago da pinga ou o copo de cerveja. O olhar que se perde no horizonte, sem um ponto fixo, dá a entender um devaneio sabe-se lá sobre o que. A cachaça é sorvida num gole só e o pouco que sobrou vai “pro santo”. O homem deixa o copo sobre o balcão e segue o seu rumo. Fico pensando para onde irá, se tem família, ou qual é o problema que lhe consome.

Mas a vida segue o seu próprio rumo e me reporto aos tempos em que passava as férias nas casas dos meus tidos e avós maternos no interior. Lembro quando saía com meu tio Antonio, pelo interior do Goioxim. Ele era vereador e costuma desejar as Boas Festas pessoalmente, indo de casa de seus eleitores. Eu adorava acompanhá-lo nessa caminhada. As mesas fartas que ficam à espera das visitas o dia inteiro. As bolachas caseiras enfeitadas com clara de ovos e açúcar colorido; as carnes de porco conservadas em latas de banha; o macarrão caseiro; os bolos de fubá; a cerveja caseira. Comidas simples que compunham as mesas fartas; o sino da igrejinha chamando para a Missa do Galo. Os antigos natais na Casa Marrom onde morava com meus irmãos, pais e avó Aurora. Era ali onde hoje está o extinto Hospital São José. Um bangalô enorme na alto da colina, com cedros centenários à sua volta, escadaria de pedra, onde passamos momentos incríveis. Não me sai da lembrança o pinheirinho natural, grande, enfeitado com bolas que ainda quebravam, com estrelas no topo. Os carrinhos de madeira, as bolas, as bonecas.

São tantas recordações. São lembranças que marcam porque ficaram tatuadas na memória e que a gente acaba deixando galopar no tempo. Eram coisas tão simples, mas tão verdadeiras que só de relembrar a emoção toma conta e, graças ao Universo, se sobrepõe à razão.

Que o tempo, a tecnologia e tantas outras “modernices” não apaguem as cenas dos natais na Vila Jordão, no interior. Que o amor, o companheirismo, a parceria, a solidariedade, a amizade, o espiritualismo, a fraternidade e tantos outros valores afins, não desapareçam dos relacionamentos. Que as lembranças continuem vivas para que o resgate da essência seja avivado, nem que seja, por algum momento de reflexão.

 

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