Um parto imprevisível

Por Claudio Andrade.

É melhor ter qualquer coisa do que uma nulidade completa? Trata-se de uma questão ambígua que pode ser utilizada tanto por simpatizantes de uma cor partidária ou por simpatizantes  anti-sistema. Esta é a pergunta que pessoas razoáveis estão se fazendo nesta hora. Um dia antes das eleições presidenciais do primeiro turno.  Minha resposta é: que venha a democracia e seja feita a vontade da maioria.  Para estarmos neste estágio agudo, há culpados? Parece que sim, mas não culpado único. Governos anteriores que não souberam inventar o futuro e que patinaram na escada do poder permissivos à corrupção, mas também uma tendência mundial de uma nova obscuridade da supremacia absoluta do capital sobre o ser humano, segundo expressão de J. Habermas, o filósofo alemão.

O capitão surfa. O sistema agoniza-se. O desespero impera. Esta tem sido a combinação: náusea, nojo e ojeriza vazam do imaginário da maioria das pessoas neste momento. Difícil conter esta explosão.

Meu receio é que as mesmas pessoas que agridem o péssimo sistema político hoje clamem por ele amanhã com mais barulho que hoje. Na expressão do candidato Haddad a política nacional passa por um processo denominado por ele de ‘parto’ sendo o mesmo  necessário, pedagógico e transponível, fazendo menção à polarização maniqueísta, sugerindo domínio da situação. Será mesmo transponível ? O parto tem muitos sentidos porque sugere ser um evento, um rito, uma dor, a possibilidade de uma nova vida ou até mesmo a possibilidade de um natimorto. Na cultura popular ‘assistir ao parto’ é o mesmo que  respeitar a natureza,  uma vez que as parteiras não fazem parto, mas assistem ao mesmo. De fato a natureza sempre foi muito forte e poucas vezes controlada pelo homem.

Estamos passando por um parto necessário? Seria isto? Quais seriam as conseqüências imediatas e em longo prazo?

Não sei exatamente o que está acontecendo em nosso país, pois tudo está tão vulnerável e tão temporal que pode ser considerado ilegível, mas acredito que os sintomas são de uma obscuridade latente, uma indefinição do amanhã, como se fosse um crédito que pode não ser depositado.  Há sinais visíveis de reminiscências autoritárias, regressão social e crendices em justificativas injustificáveis.

 Para os cidadãos comuns, neste ambiente de imprevisibilidade, onde quer-se tirar algo para colocar o que se apresenta como choque,   desenha-se uma arquitetura de que quase tudo poderá ser descartável, sem nenhuma garantia. Neste momento, prevalece a ‘suspeição’. Será que vai piorar? Será que vai melhorar ? Será que isto é isto mesmo? “Mas o atual sistema está muito perverso”, afirmam milhões. Não seria melhor a explosão do sistema?

Para muitos a certeza. Para outros a dúvida. O país está dividido. Pessoas com certeza já definidas. Pessoas com dúvidas, definindo-se.

Um interlocutor bem próximo me deu a senha com a seguinte pergunta: “Professor Claudio, não estaríamos no fenômeno da ‘caixa preta’?

Pois bem, esta assertiva poderá ser verdadeira. Grosso modo isto parece estar ocorrendo porque os valores considerados democráticos tem sido corroídos na mesma velocidade em que o egoísmo e o individualismo foram elevados ao status de virtude. Ora, esta revolução conservadora mundial, em trânsito, está sendo turbinada por um moralismo nunca visto antes. Há um exagero em tudo ou quase tudo.  Tudo o que se colocar contra este propósito corre o risco de atropelamento, sejam aqueles que advogam em favor das humanidades, sejam aqueles que advogam pela transparência democrática em todos os níveis ou por uma política inclusiva.  A situação se agrava na medida em que quem poderia se contrapor a estas práticas de enxame  de forma coletiva [social-democracia]  tem pouca credibilidade para fazê-lo por atos falhos e também porque estão  divididos em interesses sectários.

A tendência (não é uma profecia), senão agora, mas brevemente, é a manutenção do monopólio da pureza e de um moralismo atestado pela máxima “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” que pode ser sincero para alguns poucos, mas não para todos.

O veredicto disto não está claro e apenas o amanhã poderá responder se caminharemos para uma ressaca, um saudosismo nostálgico ou para uma transição razoável. O tempo será novamente o Senhor da razão.

Comentários