Um tributo às Tatianes, Suelens e outras mulheres anônimas

(Foto: Reprodução/Pixabay)

Ele chega de mansinho, trazendo um sorriso no rosto. Fala coisas bonitas. As palavras que toda mulher sonha, um dia, ouvir. Muito rápido, às vezes, em poucos meses, o castelo se constrói. Ele persuade, induz, “conquista”. Os primeiros meses… ah, a vida tão sonhada por ela. Porém, aos poucos, as palavras doces sentiriam rudes. Ela precisa trabalhar para ajudar a prover a casa; precisa estudar; precisa chegar em casa, preparar a comida, arrumar a mesa e ainda sentar-se à mesa durante o jantar. Come, levanta e lava a louça. Mesmo cansada, na cama, vira a amante. E olha que as fantasias da mente que já se torna perversa, não são poucas. Vem primeiro, o segundo, o terceiro filho. As tarefas aumentam. Agora não é apenas um, mas quatro, cinco, seis. E lá está ela, cansada, fragilizada, maltratada. Não cuida mais de si, porque necessita cuidar de outros. Enquanto isso, para ele, a noite virou dia. Os “amigos”, a companhia preferida. Ele precisa disso. O seu ego fraco requer bajulação porque lhe dá a falsa sensação de poder. Ele gosta de títulos, de regras, de hierarquia para poder “reinar” na sua ilusão. Ele precisa disso. Ela, aquela mulher que um dia ouviu promessas vãs, dedica a sua vida aos filhos. Estuda, trabalha, corre, da conta de tudo. Ela está cansada, mas não desiste. Ergue a cabeça, busca força nas entranhas e segue em frente. Ele volta pra casa no meio da noite. Ah! Quantas vezes ela o levantou do chão, embriagado. Soluçou baixinho para não acordar os filhos. Ele, aos poucos, vai assumindo a sua tirania. Bate, xinga, maltrata, discrimina, queima, corta, atira, ameaça, castra os seus desejos, frustra os seus sonhos, dilacera. E a vida que seria colorida perde a cor. O filme se torna preto e branco, e ele – o tirano, reina num machismo estonteante. Abomina a possibilidade da mulher ser vencedora. Compete, não auxilia, engolido pelo seu próprio egoísmo. Ela luta, e segue lutando e luta e segue lutando. Ele chega e bate e arrasta e continua batendo e a joga do quarto, do quinto, do sexto andar. Ele chega e a maltrata física e psicologicamente e bate e ameaça e mata e vai embora. Porém, ali na esquina, há um próxima vítima. E ele chega e ele sorri e ele ganha. E ela gosta e ela desafia e ela se entrega. E assim começa uma nova história. E ele se irrita, e ele bate e ele mata sonhos. E ela entra para a estatística dos feminicídios doméstico, político, sexual. E ela tem nos pés apenas uma etiqueta e um número pendurado num dos dedos. E ele segue em frente, marcado pelo destino, condenado, se não pela justiça humana, pela ira do Universo. Eu acredito! Nós acreditamos e por isso, seguimos em frente!

 

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